Avançar para o conteúdo principal

sobre o lançamento do livro A CHUVA NOS ESPELHOS(16 de março 2008)

31/12/08




MARIA
Ida para Lisboa na sexta, apresentar o novo livro de poemas de um dos seres luminosos que tenho a felicidade de conhecer: a Maria Azenha.

A Maria é uma mulher bela. Mas mais, muito mais do que isso: a ela aplicam-se os versos da divina Safo:

" O que é belo, é belo de ver, e basta.

Mas o que é bom, subitamente será belo."

A CHUVA NOS ESPELHOS é um belísimo livro de poemas.

Não posso deixar de transcrever aqui uma parte do prefácio que tive a alegria de escrever para o livro:



" O espelho é o lugar onde nos conhecemos. A imagem do homem é-lhe dada pela água em repouso e pela luz que nela se reflecte." O espelho é umas vezes o símbolo do sol, a luz original, o elemento masculino e forte, outras o símbolo da lua, o elemento feminino e suave. Mas o espelho de Maria é um raríssimo espelho onde se encontram a força e a sauvidade.



Aqui transcrevo um dos poemas de Maria:



SONHO



estamos na sala as três
encontro três pedras negras
três romãs
três túnicas brancas pousadas num cubo



as três pedras negras
são mais negras que o caminho
as três romãs pendem do escuro
as três túnicas brancas são do mais puro linho



uma é de criança
outra para brilhar num lago
a terceira foi talhada
na mais hábil folha de nevoeiro



esvoaçam de sala em sala
bordadas a noite inteira



parto de manhã
deixo a casa
só o riso das crianças
nos seus cadernos de água.

maria azenha

in ODISSEUS de Henrique Dória

Comentários

Mensagens populares deste blogue

bloco de recensões 12/12/11 A propósito de "A Sombra da Romã", de Maria Azenha A propósito de A Sombra da Romã, de Maria Azenha À fresca sombra da árvore da vida Uma leitura O Senhor Deus plantou um jardim no Éden, no Oriente. Além disso, colocou a árvore da vida no meio do jardim, e também a árvore do conhecimento do bem e do mal. Génesis Ao contrário do Génesis, que não nos diz de que qualidade era a árvore da vida, neste caso sabemos que é uma romãzeira, aqui transformada em romã por um processo de estilo. O estilo é a alma da poesia. Na poesia, o estilo é símbolo. São 51 poemas, ou 51 bagos de romã. Ou 51 romãs? Ou cinquenta e uma romãzeiras? Ou cinquenta e um jardins? Talvez cinquenta e um Édens com suas cinquenta e uma sombras. Porque para cada árvore da vida existe uma árvore do conhecimento do bem e do mal. Para que possa ser reconhecida a vida. Estes poemas dispõem-se a ser lidos como quisermos ou como soubermos. C...

AS FLORES DO MAL

21/10/10 AS FLORES DO MAL pelas montanhas oblíquas desenham as mulheres o rosto com os dedos rostos sempre tapados para o terror dos vivos não sei se elas se mostram o que ao mundo querem dizer freiras absurdas do vento e do medo murmuram: “irmão, não deves rir” não sei se elas se mostram não sei se elas vão ser não sei se elas agora choram se cantam um burburinho forte ou se são fadas com gemidos sempre sempre sempre a dormir não sei se elas são estátuas não sei se são de vidro se podem cantando chorar pelos filhos e pelo marido que grito hão-de dizer? que grito hão-de soltar se no exílio têm ficado cansadas de morrer? e o vento sopra há poeira no deserto sobre as montanhas oblíquas afinal quem muito sofre é quem nunca diz sofrer de que serve tudo isto de que serve isto tudo com este véu sinistro? quem foi que as viu nascer? pássaros mortos. um dia apodrecem. e alá expõe a sua terrível máscara ...

O POEMA DA MELANCOLIA DOS ESPELHOS OU

(primeiro acto) o poeta deve entrar no infinito com múltiplos espelhos caso contrário o infinito é uma história triste coxa para o resto da vida agora  estou a olhar para a avenida e vejo este poema com adesivos um poema frouxo  um poema  que nunca foi escrito na tabuleta do infinito (fui então despedida) paulatinamente vou aparecendo aqui ou acolá  dedico-me  à minha substituição permanente sou uma espécie de governo com muitos amigos por exemplo (segundo acto) o esteves da tabacaria que não é o esteves da tabacaria não me disse adeus       mas eu disse-lhe que estava a escrever o poema do chapéu preto  o poema da melancolia dos espelhos etc etc  etc  etc ad infinitum (terceiro acto) devo certamente tornar-me polícia estou a pensar desapareceu de repente a minha caneta pela via-láctea dentro abro a página cinco do livro do infinito e escrevo o poema que nunca foi escrito o poema da melancolia dos espelhos  ou o poema...