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AS FLORES DO MAL


21/10/10


pelas montanhas oblíquas
desenham as mulheres
o rosto com os dedos
rostos sempre tapados
para o terror dos vivos
não sei se elas se mostram
o que ao mundo querem dizer
freiras absurdas do vento e do medo
murmuram: “irmão, não deves rir”
não sei se elas se mostram
não sei se elas vão ser
não sei se elas agora choram
se cantam um burburinho forte
ou se são fadas com gemidos
sempre sempre sempre a dormir

não sei se elas são estátuas
não sei se são de vidro
se podem cantando chorar
pelos filhos e pelo marido

que grito hão-de dizer?
que grito hão-de soltar
se no exílio têm ficado
cansadas de morrer?

e o vento sopra
há poeira no deserto
sobre as montanhas oblíquas
afinal quem muito sofre
é quem nunca diz sofrer

de que serve tudo isto
de que serve isto tudo
com este véu sinistro?
quem foi que as viu nascer?

pássaros mortos.
um dia apodrecem.

e alá expõe a sua terrível máscara
repleta de sangue e horror

maria azenha


20/10/10
A POESIA EM "A CHUVA NOS ESPELHOS"



Li duas vezes o conjunto de poemas sob o título genérico de A Chuva nos Espelhos, da poetisa Maria Azenha. Todos eles poemas susceptíveis de se lerem hoje, amanhã, depois de amanhã…


Poemas cheios de encantamento, poemas nascidos da voz sonorosa de Maria Azenha, que sempre tem conseguido oferecer-nos uma poesia novíssima pela transparência da água pura que se transfigura em alma iluminada com uma luz tão ténue e, ao mesmo tempo, uma luz tão profunda na sua abertura ao mundo.


A leveza com que utiliza as palavras, os encadeamentos metafóricos, a expressividade de cada verso a viver de uma plenitude muito interior, fazem-nos sentir que os seus poemas atingiram em A Chuva nos Espelhos uma magia tão penetrante que lê-los não cansa, antes nos repousa, como se inspirássemos o perfume da flor do jasmim ou da tília.


Os «Mistérios» dos Órficos e dos Pitagóricos estão um pouco por cada poema. Aqui, também encontro o reflexo do mito platónico das sombras e da luz, do real e do aparente, a entrelaçarem-se em espelhos, a prolongarem imagens, a deformá-las, a torná-las bizarras, a desvanecê-las.


Mas, os poemas do acervo A Chuva nos Espelhos são, como os textos da Antiguidade, rios de murmúrios suaves e cheios de uma impetuosidade tão visível, que só o som da palavra, mesmo que seja só o «som» da palavra lida, lhes confere toda a sua real dimensão.

Hoje, os poemas feitos com a emoção de um sussurro de água, de rosas brancas ou de biombos de açucenas (poema «um biombo de açucenas para os espelhos»,), deveriam destinar-se a ser escutados com a finura da voz humana, ou seja, para serem lidos em voz alta: «(...) o espelho da lua partiu-se. / / os teus olhos / são ainda / mil / espelhos / floridos em pleno verão / / (...) ouves os repuxos, falando sozinhos? / / (...) como é difícil / fazer chegar aos teus ouvidos, / búzios!» (pp. 21-22).


O poema «sonho» , como alguns outros, esboça uma «pequena história» jogando, neste caso, com quatro símbolos: «pedras negras», «romãs», «túnicas brancas» e «um cubo». E, as paredes do mito enleiam as metáforas de cada frase, de cada verso : «estamos na sala as três / encontro três pedras negras / três romãs / três túnicas brancas pousadas num cubo (...) » (pág. 32).


Isto, em vez de a tornar oculta, omissa ou secreta, faz transparecer toda a beleza da poética de Maria Azenha. A poesia do conjunto de poemas A Chuva nos Espelhos oferece-nos «uma escada construída por relâmpagos / uma escada feita de folhas e de cântaros para / matar a sede» (pág. 43).

A «sede» que não pode deixar de crescer no deserto sem beleza em que nos atola o esquecimento da arte do poema. Aqui, neste acervo poético, há, sem dúvida, «uma pomba dentro do poema» (pág.43).

Eu gostaria de dizer que há uma pomba dentro de cada poema…



9 de Novembro de 2007

Teresa Ferrer Passos

in 
HARMONIA DO MUNDO
28/09/10


*
Dia 9 de outubro (sábado), às 16h00, na Livraria Bulhosa de Entrecampos em Lisboa.
*
Organização: VICTOR OLIVEIRA MATEUS
Prefácio: ANTÓNIO CARLOS CORTEZ


Colaboram os POETAS:

ADALBERTO ALVES, AGRIPINA COSTA MARQUES, ALBANO MARTINS, ALBERTO DA COSTA E SILVA, ALBERTO SOARES, ALEXANDRE BONAFIM, ALEXEI BUENO, ALICE FERGO, ALICE VIEIRA, ANA HATHERLY, ANA LUÍSA AMARAL, ANA MIRANDA, ANTÓNIO DE ALMEIDA MATOS, ANTONIO BRASILEIRO, ANTÓNIO CARDOSO PINTO, ANTÓNIO CARLOS CORTEZ, ANTONIO CARLOS SECCHIN,ANTONIO CÍCERO, ANTÓNIO JOSÉ QUEIROZ, ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA, ANTONIO MIRANDA, ANTÓNIO RAMOS ROSA, ANTÓNIO SALVADO, ARTUR F. COIMBRA, CARLOS FERREIRA AFONSO,CARLOS NEJAR, CARLOS VAZ, CASIMIRO DE BRITO, CLÁUDIO LIMA, CLÁUDIO NEVES,CLERI APARECIDA BIOTTO BUCCIOLLI, daniel gonçalves, DIRCEU VILLA, DONIZETE GALVÃO. E. M. DE MELO E CASTRO, ERNESTO RODRIGUES, EUNICE ARRUDA, FERNANDO ESTEVES PINTO, FLÁVIO MOREIRA DA COSTA, FLORIANO MARTINS, FLORISVALDO MATTOS, GILBERTO MENDONÇA TELES, GISELA RAMOS ROSA,GLÓRIA DE SANT'ANNA, GONÇALO SALVADO, GRAÇA PIRES,HÉLIA CORREIA,HENRIQUE LEVY, HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO, HUGO MILHANAS MACHADO,IACYR ANDERSON DE FREITAS, ILDÁSIO TAVARES, INÊS LOURENÇO, ISABEL WOLMAR, IVAN JUNQUEIRA, JAIME ROCHA, JOÃO DE MANCELOS, JOÃO NEGREIROS, JOÃO RICARDO LOPES, JOÃO RUI DE SOUSA, JOAQUIM CARDOSO DIAS, JOEL HENRIQUES, JORGE REIS-SÁ, JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA, JOSÉ DO CARMO FRANCISCO, JOSÉ EMÍLIO-NELSON, JOSÉ FÉLIX DUQUE, JOSÉ JORGE LETRIA, JOSÉ MANUEL CAPÊLO, JOSÉ MANUEL MENDES, JULIANA MIRANDA, LARA DE LEMOS, LÊDO IVO, LUÍS ADRIANO CARLOS, LUÍS FILIPE CRISTÓVÃO, MAIARA GOUVEIA,manuel a. domingos, MANUEL MADEIRA, MANUEL NETO DOS SANTOS, MARCO LUCCHESI, MARGARIDA VALE DE GATO, MARIA ALBERTA MENÉRES, MARIA ANDRESEN, MARIA AUGUSTA SILVA, MARIA AZENHA, MARIA DO CARMO CAMPOS,MARIA CARPI, MARIA ESTELA GUEDES, MARIA JOÃO FERNANDES, MARIA LUCÍLIAMELEIRO, MARIA QUINTANS, MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, MARIA DO SAMEIRO BARROSO, MARIA TERESA DIAS FURTADO, MARIA TERESA HORTA, MARIA TOSCANO,MARIANA IANELLI, MÁRIO CLÁUDIO, MATILDE ROSA ARAÚJO, MIGUEL-MANSO,MILTON TORRES, MYRIAM FRAGA, NEIDE ARCHANJO, NUNO DEMPSTER, NUNO JÚDICE, OLGA SAVARY, PAULO FRANCHETTI, PAULO MOREIRAS, PAULO TAVARES, PEDRO LYRA, PEDRO SENA-LINO, POMPEU MIGUEL MARTINS, RENATA PALLOTTINI, RICARDO DOMENECK, RODRIGO PETRONIO, ROSA ALICE BRANCO,RUI ALMEIDA, RUI COIAS, RUI COSTA, RUI LAGE, RUY ESPINHEIRA FILHO, RUY VENTURA, SEOMARA DA VEIGA FERREIRA, SÉRGIO NAZAR, TERESA RITA LOPES,TERESA VIEIRA, TIAGO NENÉ, URBANO TAVARES RODRIGUES, valter hugo mãe,VERA LÚCIA DE OLIVEIRA, VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA, VICTOR OLIVEIRA MATEUS,VÍTOR OLIVEIRA JORGE.


Editora Labirinto




18/09/10



AZENHA, Maria ; ABREU, Paulo Brito de
Folha Móvel / Maria Azenha; pref. de Paulo Brito de Abreu. - Lisboa : Átrio, 1987.
- Recenseado por António Cândido Franco. In: Revista Colóquio/Letras. Livros sobre a Mesa, n.º 110/111, Jul. 1989,p.150

© Fundação Calouste Gulbenkian, 2006

http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/getrec?id=PT.FCG.RCL.BIB.5809.01&_template=reviewedRecord


·              ISBN: 972-99079-5-1
·              Autor: Autores Diversos
Etiquetas: Garça editores



Ao ler este novo livro de poesia de Maria Azenha, em que a autora identifica, o mundo actual como um manicómio, apresentando-se ela própria como possessa de loucura, numa linguagem essencialmente surrealista, que domina com invenção e beleza, lembrei-me daquela opinião crítica que o modernismo, ou melhor, o futurismo do Orpheu motivara, apadrinhada, até, pelo eminente académico Júlio Dantas: Literatura de Manicómio. Vivemos, hoje, quase um século depois destes vanguardismos. Após o Concretismo dos anos 60, dificilmente vejo no horizonte poético português mais ousadias. Maria Azenha não foi além da Escola de Bréton e de Césariny, na forma (muito agradavelmente clássica, por vezes), mas traz-nos a novidade do seu retrato poético, com traços panfletários mas autênticos, fascinante de pensamento, rico de sortilégios, onde, até, o simbolismo de Camilo Pessanha espreita e encanta.

recenseador: António Couto Viana, 1999
Etiquetas: leitura Gulbenkian

Vê

como os frutos
vergam

pouco
a pouco. Como a água

brilha,

mais
verde em cada folha.

Como
a terra
beija,

agora cada rio.

Não é senão
o fogo. A manhã

desliza,

em
seu barco
d´oiro

Maria Azenha (Coimbra, 29/12/1945)
Poetisa, professora, licenciada em Ciências Matemáticas.

in      
http://lusografias.wordpress.com/
24/08/10

Ernesto von Rückert

Energia e informação, no meu modo de entender, não são constituintes de que nosso corpo seja composto, mas sim, atributos e adendos à sua composição. A composição do corpo, como a de todo corpo do Universo, vivo ou inanimado é matéria e campo*. Mas não é só a composição que faz com que algo seja o que é. Além dela temos a estrutura (que Aristóteles chamava de “forma”) que é o modo como se arranjam os constituintes. E, além da estrutura, temos a dinâmica, que é o modo como a estrutura funciona. Energia é um atributo, uma propriedade, que estes constituintes, essa estrutura e essa dinâmica possuem, além de outros. Informação também é algo posto sobre esta estrutura. Apesar da informação possuir um estado (“status”) de outra categoria, como as ocorrências (a mente, por exemplo), ela só existe em um substrato físico de suporte. Assim não posso dizer que somos “constituídos” de informação mas sim que “possuimos” informação impregnada em nossa estrutura e dinâmica e essa informação (o código genético – que dá, inclusive, os instintos – e as memórias), juntamente com o que antes foi dito, formarão o que cada um é, isto é, de que é “feito”. Posso dizer que sou “constituído”, de campo e matéria, mas “feito” de campo, matéria, estrutura, dinâmica, informação e ocorrências (isto é, eu, enquanto ser “vivo”, ou seja, “em funcionamento”). Energia, contudo, não é algo de que eu seja “feito”, mas algo que eu possua como atributo. Energia não é entidade substancial nem ocorrente (isto é algo que existe enquanto está acontecendo em termos de fenômeno). É claro que, sem energia, deixaremos de funcionar e, portanto, de existir, como “eu”. É como o combustível, sem o qual o carro não funciona e “morre”. Só que o carro não é feito do seu combustível.

Ernesto von Rückert

***

Mãe,
ainda que na Árvore da Vida habites,
sinto a ausência dos teus beijos.
O nosso amor é como um vaso de leite derramando branco
nas nuvens.
As células do nosso corpo,
pequeníssimas estrelas,
comungam todas da mesma revolução.
Mãe,
a comunhão é um estado de autoconhecimento.
e a matéria veste-se para o Inconsciente:
primeiro, sono.
depois, sonho.
por fim,
rendição.

Tu és Deus, e eu também.
Quando te chamo, avanças
quatro,
cinco,
seis mil anos.
Quando entramos em sintonia com os astros
sentimos a alegria do comunismo
das árvores em tuas mãos.

A Vida é um hiper-estado de consciências.
Os crimes são anti-humanos.
As formigas, radiogaláxias que estabelecem comunicações
através das suas pequenas antenas.
Os poetas fazem parte desta sociedade de partículas.

Mãe,
as últimas ondas de luz do universo
transformaram-se em humildes campos terrestres.

Mãe,
não consigo dividir-me por zero.
Tudo está em expansão, quero dizer:
cada vez mais próximo dum ponto central.
Cada centro do espaço
é um novo projecto.
E a luz, a harpa de Thales,
que um dia disse: ” Tudo está cheio de Deus”.

Eu digo, deus ou deuses
porque as nossas almas são partículas enraizadas nos céus.
Sabes como os asteróides representam a mesma dança – são eles isotrópicos.
Cantam a Incriação.
E eu entro no câmbio,
- colho as sementes do espaço que não mais
existem no zero.

Ontem,
tornei-me photograficamente um quantum.

Alguém disse: ” Vieste do Improvável e vais para o Improvável”.
Movimentamo-nos em campos de energia. Dançamos.
Deles brota a sagrada estrela da Harmonia.

Mãe,
dizem os índios:
“Se temos um coração bom quando dançamos,
então chove.”

maria azenha
27/07/10








ninguém suspeita que
um poeta não precisa de versos
com duas colheres e uma faca
abre o poema a meio
mete lá dentro o Alegre
o Napoleão e a santa Teresinha
um alfinete e uma pomba também fazem falta
para suplentes a florista edite
que vende rosas com música à Estrela
e na igreja de santa Isabel ao Rato


eu julgava que um poeta
precisava de versos nos livros
não é verdade. um poeta
sem prémios nas maminhas
passa o dia inteiro com uma faca.
se for bipolar ainda melhor
uns dias corta a preto
outros escreve para daltónicos
em são bento ?
sabias?
com a pá do lixo junta os papelotes
dos restos de poemas escabrosos
e num quadrado ao lado em Braille escreve
ao Saramago


o Sócrates é a favor de tudo
de perguntas de respostas
de ruas de democracias
de pessoas quase em cuecas
dos marcianos na Europa
porque isto é mesmo assim
ou se come Ou se é comido


o que me preocupa é o meu colar de pérolas
o grosseirão do Afonsinho
bateu na mãe com um milagre
e é por isso que hoje somos o que somos
e o que sobretudo não somos
ora, ora,
as crianças e os pomares
trazem já cabeças de navegadores
como na Alta costura!


maria azenha
in    "RECALCITRANTE" -  http://recalcitrantemor.blogspot.com/
Etiquetas: Chagal, Le poéte
13/07/10



nossa senhora de burka


rogel samuel


Ela escreveu NOSSA SENHORA DE BURKA (Coimbra: Alma Azul, 2002). Ela é Maria Azenha. Escreveu um livro de elegias que enquadram, que descrevem nosso mundo, a realidade pós-11-de-setembro. Uma edição primorosa, papel especial, pesado. Livro bonito. É um dos mais impressionantes textos sobre esta história recente, presente. Azenha mostra o rosto "coberto de sangue e de feridas". Sua primeira parte se chama "Da guerra" e trata do horror das novas guerras de nosso tempo ("este é um tempo de terror"), da nossa hipocrisia ("um tempo de máscaras"), época de partida, tema português ("os navios partiram / nunca mais regressaram"), ou seja: "hoje / ao som de guerras / os homens / esfomeados". Porque, diz Azenha: "eis como tudo entra de súbito no mundo / e um certo país é de repente um sino / tudo começou subitamente naquele segundo / igual e tão terrível à morte de tanta gente / ainda com a luz e os escombros de raiz / naquele dia terrível como a espada do vento".

Raras vezes se encontra poeta tão radicalmente engajado na Terra, para desenterrar esta palavra gasta, como noticiário do Terror, isto é, do horror da nova política de guerra que grandes e poderosas nações "desenvolvidas" da "civilização" movem agora contra povos miseráveis, mulheres veladas, religiões negadas, crenças consideradas exóticas. Perpassa ali o vento quente do deserto, naquelas 57 páginas ("pássaros mortos / um dia apodrecem").

Ela nasceu em Coimbra, licenciou-se em Coimbra, na Universidade de Coimbra, em Ciências Matemáticas. Publicou cerca de 10 livros. Foi professora nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Mas logo optou pela Arte. Hoje é professora de numa escola de ensino artístico de Lisboa. É Doutora. É Pintora.

Azenha se mostra um poeta que questiona o pensamento do mundo. Pensar o mundo, em poesia,deve ter-se porte grandioso que ela realmente tem. Dá conta, ela, transforma a tragédia histórica contemporânea em pura poesia ("américa nas tuas mãos ficou o sinal da cruz / o terrorismo entrou / e em alguns livros também").



Tecer melhor quem poderia aquele cenário da brutalidade mundial, da barbárie atual? "agora o pequeno barulho da guerra / é tão natural / como este poema que fiz".



eis como tudo chegou
eis o que não chega ao fim



No seu livro ouvimos o grito surdo, o agudo grito das mulheres do Afeganistão, mulheres de burca. O grito entre bombas. Nos seus versos a doutrina nova das armas, Azenha tripula, expõe a nudez da guerra contemporânea, com maestria e simplicidade, como contasse de um tempo remoto, o tempo nosso.



Em livro anterior, escreveu: AS VEIAS DO ESPAÇO



digo o voo das aves
essas veias levíssimas do espaço
as suas sílabas subitamente sentadas
em cadeiras voláteis
digo essas delicadas naves
que navegam por metáforas matemáticas


as suas figuras de números tranquilos
os seus modos de penetrar o espaço
as suas danças de átomos
os seus múltiplos resíduos
em silenciosos halos de naufrágios
digo as suas galáxias de luz e números


***

A segunda parte de NOSSA SENHORA DE BURKA se intitula: "Da morte": "guardo a minha vida em livros de poemas / poemas que vou soletrando devagar / escritos em toalhas de sangue / indefesos às chuvas matinais, / é nos livros que vou negando / o vazio das grandes ausências, / sobre a morte nada direi. / é inverno frio. estou à porta".

Dia virá em que Maria Azenha será lembrada como a grande autora da poética da alma de nossa época, porque "o meu destino é este o preço / é escrever. porque eu meço / os mistérios da morte e do mundo. / guardo a minha parca bagagem / sem poderes a minha caligrafia / de medos e de campas dentro / do sangue dos pomares / e o teu nome que escrevo / contra o tédio dos livros, mãe".

Abrindo o pórtico do corpo, do seio, ela diz: "sobre o meu corpo cresce uma rosa", que é a cicatriz no corpo da geografia do mundo em chamas e em dores.

Ou, como diz Azenha: "a europa é a minha casa / por isso posso chorar muito / estou triste muito triste / não estou triste estou triste / sinceramente não estava à espera disto / quem tem a culpa toda sou eu / fui eu quem fez esta embrulhada / em vez de ouvir a empregada dizer / temos que ser uns para os outros / devia era ter continuado a escrever / poemas de amor / poemas de amor"



poemas
poemas
só
poemas
que foi sempre o que escrevi


agora percebo o que é o terrorismo
agora percebo
estou triste estou muito triste

tenho o corpo podre de pax




Eis um livro raro, bom como poucos. Nos dois lados, como num disco, ou moeda: o lado A é da guerra, o lado B é da morte. Livro já consagrado. Já clássico.

http://historiadosamantes.blogspot.com/search/label/MARIA%20AZENHA
Etiquetas: maria azenha
01/07/10

Apresentação do Livro de Poemas de Maria Azenha " de amor ardem os bosques", na IV Bienal de Poesia de Silves
09/06/10







Exposição Colectiva de Artes Plásticas e Internacional de Arte Postal “Aniversário de Fernando Pessoa”, que se realiza no próximo dia 14 de Junho pelas 19h, no Museu da República e Resistência – Espaço Grandella – Estrada de Benfica 419 – 1500 Lisboa.


A exposição estará patente ao público até dia 30 de Junho.
A sessão de Abertura contará com uma sessão de poesia por: Joaquim Evónio.
Irá ainda haver uma pequena palestra sobre  Fernando Pessoa pelo seu sobrinho Dr. Luís Rosa Dias

Participam os seguintes artistas:

Carruço, Carmen Lara, Carlos Gomes, H. Mourato, Fernando Infante do Carmo, David Marques, António Sem, Paulo Prates, Theia Roiz, Marco Ayres, Henrique Tigo, entre outros.

Exposição de Internacional de Arte Postal participam:


Alemanha (1) Bernhard Zilling – Austrália (1) Denis Mizzi – Brasil (5) Sérgio Monteiro de Almeida, José Roberto Sechi,Vitor Cavallo,Celso Cintra,Thiago Buoro – Bélgica/ Belgique (2) Baudhuin Simon,Stuka Fabryka – Canada (1) Artopia – Espanha/ Espana(2) Miguel Jiménez, Juan Montero Lobo – Estados Unidos/ USA (9) Jim Leftwich, David L. Alvey, T. Smith, John M. Bennett, Dan Buck, Valery Oisteanu, Mary K. Cain, Sydney Burroughs, Zo Zois – Equador/ Ecuador (1) Monica Garces Conley – França/ France (5) André Robèr, Zav, Jean Hugues, Yves Maraux, Pascal Lenoir – Holanda/ Nederland (2) Jan van dePol, Rael – Itália/ Italia(10) Enrico Pignone, Pinky, Giovanni, Emily Joe, Varese, Lancillotto Bellini, Roberto Scala, Fabio Sassi, Ruggero Maggi, Anna Boschi, Adriano Bonari – Inglaterra/ England (4) Jon Bray, Ray Bass, Skandy, Jordan Ambler – Japão/ Japan (2) Ryosuke Cohen, Keichi Nakamura – Lituania / Lietuva (1) Gytis Skudzinskas – Portugal (20) H. Mourato, Silvia Soares, Henrique Tigo, Manuel Pina, Vera Occhiucci, Gonçalo Beja da Costa, Miguel Barros, Prekatado, Henry Cruz, Aida Espadinha, Fernando Henriques, Lourdes, Ana Maria Malta, Paulo Santos, Eduardo Perestrelo, Maria Arceu,Clo Bourgar,Ana Maria Malta José Manuel Alves-Pereira, Victor Teixeira Lopes, Joaquim Sousa, Raquel Martins, Maria Azenha – República Checa/ Ceská Republika (1) Valentino Sani – Uruguai/ Uruguay (1) Clemente Padin


in MANUSCRITOS DIGITAIS


07/06/10
10/05/10




Maria Azenha e Henrique Dória

O BOSQUE DO AMOR
Somos um bosque. E um bosque dentro dos bosques. Bosque de folhas caducas e perenes, do castanho da terra ou do alto verde, das árvores erguidas mas também das árvores queimadas ou cortadas, derrubadas. Árvores que fazem a união entre a terra e o céu. Árvores debaixo das quais nos abrigamos ou recebemos a iluminação, ou árvores através das quais recebemos o relâmpago da morte. Árvores da crucificação.

Escreveu BERNARDO DE CLARAVAL, o grande impulsionador da Ordem dos Templários:

“ Acredita em mim, aprenderás mais lições nos bosques do que em livros. As árvores e as pedras ensinar-te-ão aquilo que não poderás aprender dos mestres.”

E revelava Lamartine, em “Imortalidade”: “Deus escondido…a natureza é o teu templo.”

Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro, é o destino a que cada homem, cada mulher aspira. E aqui estamos perante um livro, um filho, uma árvore do bosque de Maria.

Neste bosque tudo é simbólico, porque simultaneamente imaginário e real. O símbolo é um esforço do homem para conhecer, fixar e, em última análise, determinar o mundo.

Não são símbolos os instrumentos e as palavras que os magos usam para contactarem com os espíritos?

E a verdadeira poesia, como a que escreve Maria Azenha, não é mais do que uma aspiração à magia.

Por outro lado, conhecimento, fixação e domínio são os fins das ordens iniciáticas e, por isso, e porque aspiram ao conhecimento de que só os iluminados e os magos são portadores, as ordens iniciáticas são também ordens simbólicas e filosóficas. Através dos símbolos, os obreiros das ordens iniciáticas evocam e invocam o mundo. E Maria é uma obreira que evoca e invoca o mundo através do simbolismo do bosque das palavras, através do poema.

“ de amor ardem os bosques” é o título desta obra poética de Maria. Com letras todas minúsculas, em sinal de humildade da obreira.

A palavra amor é a chave da obra. Porque o amor é a chave que nos abre o mundo, a palavra secreta que nos permite penetrar no bosque que se encontra dentro de nós mesmos e no bosque do mundo.

Como escreveu Dante na sua COMÉDIA, e já tinha escrito Boécio em A CONSOLAÇÃO DA FILOSOFIA, só o amor une o universo.

O amor está intensamente ligado ao fogo, símbolo da destruição e também da criação. O fogo é o símbolo da presença de Deus junto do homem. Foi através da sarça ardente que o Deus dos judeus se manifestou a Moisés. E Deus é o Amor, que como diziam Boécio e Dante, une o sol e as estrelas.

O fogo é ainda o símbolo da sabedoria, da iluminação. Foi através de línguas de fogo que a luz de Deus entrou nos doze apóstolos. O alquimista cria a imortalidade no fogo do seu fornilho.

O fogo que ilumina “ de amor ardem os bosques” é o fogo alquímico do amor que transforma o interior do homem, o seu bosque.

Esta obra de Maria inicia-se com uma citação do nominalista Guilherme de Occam: “ O homem só muito lentamente aprende o seu nome.”

A citação é também simbólica. Guilherme de Occam, o grande, talvez o maior nominalista, foi o filósofo que libertou as palavras das coisas a que Platão e o cristianismo platónico as tinham aprisionado. O monge franciscano de Occam teve a humildade e a pobreza como princípios de vida e a liberdade como ideal sagrado e único caminho que leva o homem a conhecer-se a si mesmo como estava escrito no frontão de Delfos, a conhecer o seu próprio nome. A viagem através dos bosques é penosa, assustadora. Mas só através dela poderemos conhecer o nosso próprio nome.
Maria divide a sua obra em cinco partes, que denomina folhas, porque as folhas são as partes do bosque que simultaneamente são um ente em si, símbolo do reino vegetal, mas também a parte de onde o ramo, a árvore e o bosque retiram o seu sentido e prosperidade, pois que é das folhas que à árvore vem a vida, através do ar, esse elemento essencial ao fogo.

São cinco essas folhas, porque cinco é o número daqueles que iluminam o templo. Cinco é também o número do amor, o número nupcial, como ensinava Pitágoras, o número da união do princípio masculino, celeste, o três, com o princípio feminino, terrestre, o dois. O símbolo do homem, como o conhecemos do desenho de Mestre Leonardo e do ensinamento de Hildegarda de Bingen. Cinco é também o conjunto dos sentidos que nos ligam ao mundo e através dos quais o mundo se nos revela.
A primeira folha, intitula-a Maria “ da inteligência dos bosques”

E, no primeiro poema, diz-nos que estamos aqui como num templo iniciático, onde o que se passa “ À luz da lâmpada do anfitrião da casa” não pode ser revelado, e é objecto de um voto de silêncio. È também em silêncio, como em todos os templos, que devemos entrar com o coração cheio do vinho do amor. Em silêncio se contacta com a inteligência dos bosques, com tudo o que nos bosques há que, como dizia Bernardo de Claraval, nos pode ensinar muito: as aves, o vento, a água que nos hão-de ensinar a “ciência da respiração”..

Maria trabalha “ na lavoura do alfabeto”. A “centenária árvore” ensina-lhe a subtil “fonética dos insectos.”

A acácia é a árvore que está no coração deste bosque, a acácia árvore de folha perene de que era feita a arca da aliança que se encontrava no Santo dos Santos, do Templo. A acácia árvore que no dealbar do solstício de Inverno nos anuncia a luz de inúmeros sóis, a acácia com que se cobriu o corpo morto de Mestre Hiram que a ciência dos bosques fará renascer nos nove mestres seus sucessores.
Por isso a segunda folha se intitula “ da ciência dos bosques”, porque bosque e amor são inteligência e ciência, lugar onde aprendemos, o que aprendemos, e como aprendemos no ritual sagrado.
Mas o bosque é também o lugar de sombras, porque tudo no homem é simultaneamente luz e sombra, branco e negro, e a variedade infinita de cores entre o branco e o negro. Por isso a terceira folha se haveria de intitular “das sombras dos bosques”.

Esse é o espaço da solidão, da tristeza, da noite.

“ Vem pela noite um bandido

com uma mão cheia de cinzas

para nos cegar”

escreve Maria no terceiro poema dessa folha. E interroga-se Maria pensando nesses mendigos que aguardam apenas “a tigela de sopa” esmagados pelo cinismo:

“« quem é que reponde por isto?»”

Ao lado do negro está o branco, ao lado das trevas está a luz, ao lado das sombras estão as clareiras, lá onde o céu se abre límpido para homem, lá onde o homem pode receber a luz em contacto com o céu. Lá se encontram “ os roseirais do tempo”. Lá se poderá dialogar simultaneamente com o azul do céu e o verde das árvores.

“ E a árvore disse:«criei em ti o verde.

Porque me amaste

Teci em ti a ilusão da sede.

Depois,

Para que me conhecesses

Entreguei-te

Às luminárias do solo.»

É o diálogo com a divindade, como o praticou Alain Bosquet, simultaneamente tormentoso e sereno, porque, como bem sabemos, o próprio Deus deseja a sua finitude e intimidade, Ele próprio deseja as coisas simples do homem: o calor do sol, a chávena de chá, o caderno, os lírios. E assim termina essa quarta folha, “das clareiras dos bosques”:

Escreve:

No alto da manhã

prepara-se o sol

para uma chávena de chá quente.

caderno e lírios surgem mais tarde

............................................................entra,

.........................................fecha a porta.

.....................agora precisamos de paz.

Finalmente, “do coração dos bosques” é a última folha.

Na sua viagem através dos bosques, Maria perdeu o medo, porque toda a viagem é uma luta contra o medo, um modo de ir ao encontro da sabedoria, da força e da beleza.

Os bosques existem porque no seu centro está o coração. Chegados a Dezembro, ao frio, o que dos bosques resta é o coração.

Meu coração fugiu das coisas vãs

venceu as pedras o ar o espaço

para cantar disse manhã

...............................criança

...............................de

...............................água

...............................ave branca

Maria chegou à essência das coisas, à irmã criança, à irmã ave, os seres que dão sentido ao mundo. Dá-se nela o renascer das coisas. Depois de Dezembro surge a Primavera, o “ sopro livre”, “o domínio das cores.”

Perto do fim, ela, a criança, olha para trás, para o Outono, para a ceia de Natal, e descobre:

“ O amor é o que nos resta de mais sagrado”

Da memória da viagem, o amor é, sim, Maria, o que nos resta de mais sagrado no coração dos bosques.

Henrique Dória




06/05/10






REVISTA TRIPLOV

de Artes, Religiões e Ciências





Nova Série
Junho 2010
Número 02




27/04/10
DE AMOR ARDEM OS BOSQUES. Maria Azenha. 2010. 402 pp.


Hemos recibido el gran honor de que nuestro material haya sido incluido en un libro de una de las más altas y conocidas poetisas de Portugal: Maria Azenha, nacida y radicada en Coimbra, la ciudad universitaria por excelencia y con uno de los valores culturales más altos de la tierra lusitana. Son varios de los textos de nuestro 
Programa Introducción a la Ciencia Sagrada traducidos con pulcritud y fineza por la autora, que ha encontrado en ella el hilo de la poesía que signa todo su trabajo.



Además nos ha enviado junto con el libro, un CD llamado “O mar atinge-nos” con varios de sus poemas acompañados por siete grandes intérpretes de la guitarra portuguesa. Es para nosotros un gran satisfacción haber sido incluidos en el libro de esta poetisa a la que no conocíamos hasta el momento en que solicitó la autorización para publicar nuestros textos. F.G.


 Federico.Gonzalez.
27/03/10



LITERATURA
DE AMOR ARDEM OS BOSQUES


Esta é a última obra de Maria Azenha. Apresenta-se com um título muito belo sendo a capa e a badana, de grande qualidade plástica, da responsabilidade de Remédios Varo.
Inicia-se com cinco extra-textos da obra Introdução à Ciência Sagrada, conjuntode textos coordenados por Federico González.
A obra propriamente dita está dividida em cinco partes (cinco folhas):
1.Da inteligência dos bosques;
2.Da ciência dos bosques; 3.Das sombras dos bosques; 4.Das clareiras dos bosques e 5.Do coração dos bosques.
Os pré-textos de Federico González que, de algum modo, preparam a obra de Maria Azenha têm títulos todos referenciados à natureza: do bosque, do vegetal, da montanha e da caverna (gruta), da pedra e finalmente do nível e do prumo.
A natureza foi desde sempre um tema muito utilizado pelo homem já que há um óbvio relacionamento do homem com ela, natureza que lhe fornece,aliás, uma rede de simbolismos que interpretam ou ajudam a interpretar a própria vida dos humanos, quer no seu viver individual, quer no seu viver colectivo.
É curiosa a divisão proposta por M. Azenha: na verdade, subjacente a todo o conhecimento está a inteligência, substrato indispensável à razão (ciência dos bosques) e aos sentidos (coração dos bosques). Acrescente-se a isto o lado diurno (clareiras dos bosques) e o lado nocturno (sombras dos bosques) e temos aqui uma pertinente visão da vida humana metaforizada pela árvore (unidade sem a qual não existiriam bosques).
O bosque é pois o equivalente gregário da sociedade e a árvore assume os dois sexos e bem assim o seu carácter de complementaridade e de conflitualidade.
Realmente, a árvore assume um carácter feminino, matricial, através das suas raízes que mergulham na terra e um carácter masculino pela sua posição erecta, símbolo fálico que contribui para a fertilidade do mundo.
Não destoará aqui, penso eu, citar Eugénio de Andrade que escreveu: um poema ou uma árvore podem ainda salvar o mundo. Esta lição (de Eugénio de
Andrade) bem a entendeu M. Azenha.
Há nesta obra três vocábulos, árvore, luz e silêncio que aparecem com uma frequência significativa.
Há entre elas relações de grande proximidade que exprimem, quer nas epígrafes (de Juan Ramón Jiménez, por exemplo), quer nos versos de M. Azenha (logo no primeiro poema, p. 29): à luz da lâmpada do anfitrião da casa / o voto de silêncio é um pequeno lume […] ou no da p. 30: Não sabes, leitor, como estou rodeada de silêncio […]. No poema VI (p. 34) a autora descobre um pouco o véu do seu fabbro:
[…] abrigo-me entre árvores prestes a
parir gritos em flor / na materna ciência do silêncio / onde só o amor flutua. Isto é, o amor, o grande motor do mundo, precisa de uma vertente vegetal, aqui simbolizada pela árvore, e de silêncio, o silêncio propiciatório à grande intimidade.
Apesar deste sentimento que é um sentimento que só tem sentido se partilhado, o poeta volta sempre à nuvem da sua solidão; isto o diz a autora no poema da p. 45. Ainda assim, apesar da “sua solidão” […] a um poeta é reservado // o alfabeto / uma árvore / o fogo.
Os poemas da terceira folha, Das sombras dos bosques, são o contra-ponto do perfil luminoso que se destaca nas duas primeiras folhas.

Logo no primeiro poema (p. 55) M. Azenha assume-se como o relâmpago ferido para no poema seguinte afirmar Desde que a luz se fez artificial ficámos órfãos / juntaram-se nas cidades os solitários / para pôr em comum a solidão.
O tom de desencanto e até de denúncia de um tempo hostil mantém-se: […] O rapaz cheio de saúde /
perde o trabalho, / sai de casa, fica ao frio da rua, / torna-se um sem-abrigo. (p. 57) e de forma porventura mais contundente no poema da p.59: Esperava apenas a tigela da sopa/ […] vi-o nas escadas do metro/ […] e quando alguém não suportou mais e disse: / “quem é que responde por isto?”/ ignorámos as escadas do metro / ignorámos o rosto que esperava apenas / uma tigela de sopa […].
Não resisto à tentação de transcrever na íntegra o poema da p. 62, porventura o poema mais dramático desta obra:

Pertencemos a uma geração sem brinquedos a sério.
os avós morreram. fecharam-nos para sempre em livros.
do coração dos poemas extraíram petróleo,
fizeram dos barcos uma metáfora para cegar os olhos.

silenciosos e fractais os relógios de
ausentes cais
circulam sem gritos nas metrópoles

não há quem nos faça acreditar em bonecas de trapos
nem em trapezistas de madeira para sonhar…

ficámos todos tão velhos

Apesar destas “sombras” há ainda lugar para alguma luz; ela confina-se, a meu ver, na memória e no sonho como se pode ver nalguns poemas das duas últimas partes.
Por exemplo, no poema da p.74
existe uma reiterada reflexão sobre o passado:

Faz tempo as algas tinham braços […]
faz tempo cruzavam a eternidade as bagas e os corais […] faz tempo os amantes vinham partindo e chegando à nave do dia […] faz tempo os humanos percorriam as pálpebras dos bosques […]

Termino com a citação do poema da p.75 onde me parece claro o desejo do sonho, a eterna procura, nunca encontrada, do outro lugar, da u-topia: Canto a luz / o silêncio triunfante da mão esquerda dos bosques / os abetos e as pedras as núpcias da manhã / as suas alongadas sombras surpreendidas pelo piano das fontes / - cantante coração de águas exiladas. […]
Creio ser esta a melhor obra de poesia de M. Azenha. É verdade que não conheço tudo quanto escreveu mas reconheço que há um salto qualitativo, para melhor, entre Chuva nos Espelhos (de resto uma obra de qualidade) e este De amor ardem os bosques.
Luís Serrano
professor universitário
in "AS ARTES ENTRE AS LETRAS", nº22
24 março 2010







Azenha em tom maior


Rogel Samuel
Seu livro novo, "De amor ardem os bosques", é um dos seus melhores livros.

Difícil, obra que desafia o crítico. Metafísica da floresta. Dos bosques. Ecologia pura. Azenha não deixa
decifrar fácil.

As florestas, os bosques, ardem nas queimadas, na destruição sem cuidado.

"O desflorestamento é uma das intervenções humanas que mais prejudica a sustentabilidade ambiental na Amazônia.
Na região amazônica, a desflorestamento já removeu 17% da floresta original. Além disso, extensas áreas do
bioma Amazônia abrigam florestas empobrecidas e degradadas por queimadas e exploração madeireira predatória"
dizem os especialistas.

Em Maria Azenha a coisa se complica:

"No lago mais profundo repousa a jóia do bosque.
é esta a última palavra"


O livro é a mim dedicado. Talvez por minha raiz amazônica. O livro tem uma massa de silêncio e ouro. Tudo
ali reluz como num sonho, em filigramas de ar, em cântaros de luzes do sol, poesia pausada pela inteligência dos
bosques, escrita entre as sombrias grutas da floresta.

28/02/10


Para os olhos mais distraídos este é um livro de poesia, para outros olhos distraídos será um manual alquímico.
Mas se nos debruçarmos sobre ele a partir do sonho, essa escondida realidade, veremos que aqui falam: anjos, flores e crianças maltratadas, e crianças abandonadas, e crianças redimidas, à vez. Outras vezes, em uníssono.
É a linguagem dos bosques quando o céu se torna cinzento e nos falta a coragem para lá penetrar. É então que os bosques são bosques e que o amor se torna realmente amor, não gargarejo de circo alucinado.
Aqui é preciso entrar por uma perigosa porta fechada. Abrir-se-á ao sair.
É difícil falar de um belo livro.
Faço-o como sei.

23/02/10



"neste assombro de navegar e dar a volta ao mundo"
[15:20 ]

.
Estou na página. neste falso regaço materno
neste assombro de navegar e dar a volta ao mundo
da maneira mais estranha

as crianças vêm aconchegar-se aqui
quase sempre tristes,

esmagam a luz nos olhos
de tanto sonho e escuridão

só quero sentir esta luz. esta luz que amei
e perdi

Maria Azenha in "de amor ardem os bosques", ed./autor, 2010, p 60.

***

"durante anos treinei o lúmen do coração"
[09:27 ]

.
Não sabes, leitor, como estou rodeada de silêncio
há uma ave onde este texto se apoia.
fecho os olhos, e o poema traz para este lugar
o búzio dos cofres

escrevo em filigranas de ar
secretas harpas de sombra
onde as primeiras letras ousam pousar.
durante anos treinei o lúmen do coração
em cântaros de sol subindo os primeiros degraus

depois habituei-me à confidência das aves
pousada na inteligência dos bosques
movidos a vento e água,
acácias entre mãos

por último a ciência da respiração
no sumo das auroras

Maria Azenha in "de amor ardem os bosques", ed./aut., 2010, p 30.


20/02/10



De amor ardem os bosques es el último libro de la poeta portuguesa Maria Azenha. He disfrutado con sus poemas. Transcribo dos de ellos y hasta me atrevo a traducirlos.
O poema é feito de nossas próprias vértebras
disse-o Maiakowski
indicando onde começa a direcção da montanha
aguarda longas estações no decorrer do gelo
a meia distância do silêncio e das flores do sândalo
os brotos mais tenros
chegam com a luz da primavera.


El poema está hecho de nuestras propias vértebras
dice Maiakowski
indicando dónde comienza la dirección de la montaña
aguarda las largas estaciones de los hielos
a mitad de camino entre el silencio y las flores del sándalo
los brotes más tiernos
llegan con la luz de la primavera

**************

A árvore
nua
de peito amplo
retira da sombra da noite
a ciência do manto


Un árbol
desnudo
de ancho pecho
roba a la sombra de la noche
la ciencia del manto



12/02/10


26/01/10


A nova obra poética de Maria Azenha «De amor ardem os bosques» tem lançamento previsto para o final de Janeiro de 2010. A tiragem é de 250 exemplares, dos quais 50 são numerados e assinados pela autora. As reservas da obra podem ser feitas através do email:

24/01/10


O poeta é quem mais deve aclarar o dia
regar as palavras a horas diferentes
colher as ervas daninhas que minam o solo
colocar espantalhos no seio das janelas. porque
alguns ladrões vêm de noite pelo silêncio da lua
e de noite colhem vocábulos semelhantes a outros
alguns colocados em jarrões falsos de bruma;
semicerram os olhos
assinam por baixo com outra assinatura

o poeta tem o dever de reparar os estragos
feitos
com as graduações da matéria

é a boca ávida de luz que os chama


maria azenha



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