(primeiro acto)
o poeta
deve entrar no infinito com múltiplos espelhos
caso contrário o infinito é uma história triste
coxa para o resto da vida
agora estou a olhar para a avenida
e vejo este poema com adesivos
um poema frouxo
um poema que nunca foi escrito
na tabuleta do infinito
(fui então despedida)
paulatinamente vou aparecendo
aqui ou acolá dedico-me
à minha substituição permanente
sou uma espécie de governo
com muitos amigos por exemplo
(segundo acto)
o esteves da tabacaria
que não é o esteves da tabacaria
não me disse adeus mas eu
disse-lhe que estava a escrever
o poema do chapéu preto
o poema da melancolia dos espelhos
etc etc etc etc
ad infinitum
(terceiro acto)
devo certamente tornar-me polícia
estou a pensar
desapareceu de repente
a minha caneta pela via-láctea dentro
abro a página cinco do livro do infinito
e escrevo o poema que nunca foi escrito
o poema da melancolia
dos espelhos
ou
o poema deste país dona alice
que é minha vizinha
maria azenha
in " Nossa Senhora de Burka", 2002
***
Nota: A imprevisibilidade temática e formal é uma característica que se vai descobrindo em cada novo poema de Maria Azenha. Há uma transversalidade enriquecedora, neste domínio, ao ponto de se poder afirmar que Maria Azenha, no estilo e no tema, não se copia a si própria. Daí, eu já ter referido, em comentário anterior, a postura desconcertante da sua poesia, que aborda sempre a realidade poética pelo lado do absurdo mágico e fantástico, o que obriga o leitor a fixar-se com mais atenção no poema. Este poema, “O POEMA DA MELANCOLIA DOS ESPELHOS OU”, é a prova disso, até no seu título. O recurso à estrutura cénica de um texto teatral permite-lhe a mudança rápida do tema, da forma e da estrutura do poema.
Os espelhos (e as imagens poéticas que eles devolvem) são elementos recorrentes na poesia de Maria Azenha, e isto tem muito a ver com a multiplicidade de heterónimos em que se desdobra a sua personalidade poética.
Alexandre Castro
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