12/12/11
A propósito de A Sombra da Romã, de Maria Azenha
À fresca sombra da árvore da vida
Uma leitura
O Senhor Deus plantou um jardim no Éden, no Oriente.
Além disso, colocou a árvore da vida no meio do
jardim, e também a árvore do conhecimento do bem e do mal.
Génesis
Ao contrário do Génesis, que não nos diz de que qualidade era a árvore da vida, neste caso sabemos que é uma romãzeira, aqui transformada em romã por um processo de estilo. O estilo é a alma da poesia. Na poesia, o estilo é símbolo.
São 51 poemas, ou 51 bagos de romã. Ou 51 romãs? Ou cinquenta e uma romãzeiras? Ou cinquenta e um jardins? Talvez cinquenta e um Édens com suas cinquenta e uma sombras. Porque para cada árvore da vida existe uma árvore do conhecimento do bem e do mal. Para que possa ser reconhecida a vida. Estes poemas dispõem-se a ser lidos como quisermos ou como soubermos. Como pudermos. Saboreei os bagos como bafos, alguns como desabafos. Todos, como palavras para falar do impossível, como a chama que há no som, ou o sangue que há no sol, o orvalho que há no peito. Falam da natureza profunda ou alquímica das coisas. Do perfume ou essência do mundo.
Curtos, incisivos, cirúrgicos, experiências de lampejo que são e que proporcionam. Para quem se atrever a olhar a luz que não se limita a iluminar, mas incendeia.
Falam de sol, mas também da via que até ele conduz: o luar, os sonhos e a noite, o caminho mais direto para a luz.
Este livro abriu-me horizontes e mostrou-me outros mundos. Num deles, apercebi-me da nunca antes pensada semelhança musical entre as palavras língua e alaúde. Mais uma vez confirmo o que o meu coração sempre soube: que para além de todas as discussões científicas e as tendências que vão estando alternadamente na moda, quem olha a linguagem a partir de dentro, como uma criança ou um poeta, sabe que ela não é aleatória. Língua e lábios são alaúdes. Não duvido. Deus não joga aos dados, mais uma vez se prova.
Portanto, estes poemas podem também ser lidos como um pequeno tratado poético sobre a natureza das coisas e da linguagem. Ou um livro particular de estudo: “Estudo segredos”. E não será o mesmo?
Por outro lado, ocorreu-me que se eu tivesse de pintar ou de alguma forma representar estes poemas, fá-lo-ia com baixos-relevos de rendas, ouro e prata, incrustados de pequenos sinais de natureza, como bagos de romã, rebentos de ervas, salpicos de espuma da milionésima onda da praia ou gotas de orvalho. Seria obra de um instante. Porque há uma beleza que brilha assim.
Mas regressemos ao que diz. Observamos que mesmo no amor, isto é, no mundo, o grande palco de aprendizagem do amor, esta poesia aceita a guerra, não procura obsessivamente a luz. Sabe que é essa uma forma divina de aprender a encontrá-la.
Os versos têm olhos. Os olhos possuem uma visão profunda, como um raio x, vêem e dão a ver para lá do que do poema se vê; ouvem e dão a ouvir para lá de todos os sons; pressentem e fazem pressentir para lá dos sentidos.
Como toda a boa poesia amorosa é mística. Como toda a boa poesia mística é amorosa.
E geométrica. O círculo é a forma e o perímetro são os sonhos. Quanto aos planos de Deus, esses são desenhados a traços de rostos.
É da transfiguração, ao modo de Alice, com planetas que fulminam, e flores que nascem nos cabelos, que esta poesia se sustenta. Para exemplificar a beleza oculta do mundo, não encontro melhor imagem do que um “cântaro de sol que no deserto derrama linho e mel” ou uma boca onde “as aves fazem ninho”.
Mas talvez este livro tenha sido escrito para alertar o mundo para o maior dos cuidados, para o único necessário cuidado: “Sinto o perigo de passarmos perto das crianças, / De semearmos destroços de gelo no seu peito.”
Somos as crianças. Sempre fomos. Enchendo de gelo os nossos próprios peitos. Que o fogo da beleza, através daquilo a que poderíamos chamar a consciência poética, possa derreter este gelo antigo e substituí-lo por romãs doces, maduras e tenras.
Que assim seja.
Cheguei à última página. Regresso ao início. Mas agora, só eu e os bagos da romã. Digo, os jardins e suas sombras.
Risoleta C. Pinto Pedro
2011, Lisboa
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10/12/11
UM LIVRO SOBRE A ARTE DA MEMÓRIA –
“ TUDO É DE TODOS”- Luis Natal Marques - “A escrita é a continuação da vida”-
Maria Azenha
UM LIVRO SOBRE A ARTE DA MEMÓRIA – “ TUDO É DE TODOS”- Luis Natal Marques
“A escrita é a continuação da vida”- Maria Azenha
Diz-nos Giordano Bruno que “a magia é a arte da memória”.
É o que este livro é : um livro sobre a Arte da Memória.
Esta Arte é expressa desde o inicio do livro até aos últimos trechos.
- Um menino nasce de uma mulher de idade de 50 anos, miraculosamente, não esperado.
O menino de nome João, ao nascer não chora. Pelo contrário: “saboreava o ato do seu próprio nascimento”.
Ao ser batizado e ao ser-lhe dado o nome, João, “cada vez que o padre repetia o seu nome, a criança respondia-lhe com um sorriso largo, aberto, como se visse as cores do arco-íris”.
Toda a atmosfera em que a criança nasce e se desenvolve, sendo humanamente reconhecida, é uma atmosfera mágica, porque os olhos do coração sentem.
Como se pudesse evocar Rûmi:
“Morri como mineral e tornei-me planta.
Morri como planta e tornei-me animal.
Morri como animal e tornei-me homem”
João, a personagem principal de “Tudo é de todos”, (mas não menos importante que Maria , a mãe, e o padrinho Belarmino – pois permitem que João se manifeste em todas as suas potencialidades) é um viajante noturno que viaja em plena luz do conhecimento.
Tudo o que ele vê e toca é eterno, puro e incorruptível. (Tal como no Principezinho de Éxupery)
João viaja dentro de si mesmo, reflete uma mina de rubis, os raios de sol iluminam o seu caminho.
Com esta magia, João vai transformando o pó da terra em ouro puro.
E toda a sua estória é contada no seu coração com os seus cinco sentidos, que são mais do que cinco sentidos.
Sabemos que para os muçulmanos de todo o mundo, o local mais sagrado da terra é um Santuário Quadrado, coberto de preto, chamado Caaba, que fica no centro do pátio da mesquita (al-Haram) em Meca.
Consta que (na tradição islâmica) Abraão e Ismael construíram a Caaba como uma cópia da casa de Deus no céu.
Consta ainda que essa pedra foi dada a Adão depois da sua expulsão do Paraíso, para que obtivesse “perdão” dos seus pecados.
Diz-se ainda que a pedra era originariamente branca, mas ao absorver os pecados de milhões de peregrinos ficou preta.
(Agora, rachada em pedaços, a pedra negra é protegida por uma estrutura de prata.)
Mas dizia eu que a história de João é uma peregrinação – uma peregrinação em direção à Caaba de seu coração.
Ele professa a religião do Amor - a única religião que torna os seres videntes. E só a magia do Amor permite conhecer a essência dos universos.
Por isso as cores são sons e os sons são cheiros e os cheiros são cores. E tudo é tudo e todos ao mesmo tempo.
O Amor, desde o inicio ao fim deste excelente livro consegue rastrear as suspensões da luz, em suas diversas vibrações, e em cada ser que atravessa .
Como se João, e é dito, nascesse perfeito desde o início dos tempos.
Falando ainda a respeito da arte da memória, que este livro evoca, recordo um trecho de “Ísis sem véu” de H. Blavatsky :
“Ao despertar para a consciência externa, de um pesado e profundo sono, sem sonhos e ininterrupto, os homens podem às vezes não se lembrar de nada. Mas as impressões das cenas e das paisagens que o corpo astral viu em suas peregrinações estão ainda ali, embora latentes sob a pressão da matéria”.
“Elas podem ser despertadas a qualquer momento, e então, durante os lampejos da memória interna do homem, há um intercâmbio de energias entre os universos visíveis e invisíveis.”
No decorrer da estória, João, já adolescente, coloca em causa a necessidade ou a identidade da leitura dos livros, para adquirir a Sabedoria.
A este respeito lembro as palavras de Dinis, o Areopagita, (membro do Areópago) :
“Rejeitem todos os conhecimentos para receberem “o Conhecimento”. Escreveu entre muitos a “Hierarquia Celeste” onde afirma:
“A luz irradia do Pai. A luz sai d’Ele para nos iluminar com os seus excelentes dons.”
Ou citando, mais próximo de nós, Pessoa:
“ Desaprender tudo para tudo aprender”.
É esvaziado o Copo que se prepara o Co(r)po para receber o delicioso néctar.
Avançando ainda na leitura deste livro, diria que João poderia ter conhecido os Essénios.
-Os Essénios nunca juravam em cima de nada, porque o seu “sim” e o seu “não” eram tão bons e muito melhores que um juramento.-
No silêncio das horas nocturnas, quando os sentidos corpóreos estão fechados (nas grades do sono, ou por outra arte maior) é então que outros sentidos se ampliam.
João adivinha, sabe pela Arte da Memória, que Deus emana-se em milhões de seres e universos, e está em todas as coisas.
Interrogo-me:
Mas,João, personagem principal deste livro, está no Céu ou está na Terra?
Como disse Píndaro:
“No Céu, saber é olhar. Na Terra, saber é recordar”.
João olha e recorda.
"A Unidade é a sua Origem.
O regresso à Unidade é a sua Senda.
O Cérebro mostra o Caminho de Regresso
Mas o Coração é a chave para cada etapa”.
Como nos diz a Escola Pitagórica – O Silêncio é a primeira pedra do templo da Filosofia- (Amor à Sabedoria).
E sobre o Silêncio, que percorre este livro mágico (“Tudo é de todos”), quer na personagem de João, quer nas entrelinhas de toda a obra, quer nas páginas brancas, ele é de facto a pedra lançada ao leitor.
Para que o leitor construa o Templo da Sabedoria.
Hemingway afirmou:
“São precisos dois anos para aprender a falar e sessenta para aprender a calar”
É desta Sabedoria que João nos fala, falando, sob o dígito da humildade.
Neste livro não há muitos diálogos (a dois) , e o dialogo dá-se entre iguais e diferentes, nunca entre antagónicos - Moacir Gadotti
Diálogo vem da palavra grega dialogos.
Logos significa “a palavra”, ou melhor, “o significado da palavra”.
E dia significa – através de, não significando dois ou duplo.
Um diálogo pode-se dar com um qualquer número de pessoas, não apenas entre duas.
Até mesmo uma pessoa sozinha, pode ter um sentido de diálogo consigo mesma se o espírito do diálogo estiver presente.
Portanto, a palavra vai fluindo entre nós e através de nós.
Isto torna possível um fluir de significado para todo os dialogantes.
Desse fluir surge uma compreensão nova.
Trata-se de algo que não estava presente quando se começou.
É uma tarefa criativa. E o significado assim compartilhado, assim criado, é o “cimento” que mantém as pessoas unidas.
É o que acontece com este livro.
João tem um segredo: “Tudo é de todos”.
João diz-nos nesse segredo, e cito Eliphas Lévi :
“É necessário saber para ousar
É necessário ousar para querer
É necessário querer para ter o Império
E para reinar é necessário calar”
É que somos seres espirituais tendo uma experiencia humana.
E não o contrário.
O “eu” espiritual no ser humano é omnisciente e tem todos os conhecimentos inatos em si, ao passo que o “eu” pessoal é escravo da memória física.
É que tudo é distinto sem ser separado.
Um livro cheio de Amor.
“O Amor mata o que éramos, a fim de que surja o que não éramos.
O Amor é para nós como a morte”- Carl Jung.
Um livro da Arte da Memória e do Amor.
Pois, potenciais leitores, que cada um de nós ao lê-lo, vivencie estas letras,que estão na Memória,como Arte.
“É em nossas Almas que devemos escrever pois é aí que os nossos pensamentos germinam de modo proveitoso” – L. C. Saint Martin
Maria Azenha
27/07/11
os livros que leio são uma extensão minha
os outros estão escritos numa língua estrangeira
a esses vou arrancando as páginas até restar nas mãos
uma fogueira. depois imagino que alguém que passe por eles
me traga um lugar onde o sol me queime os dedos
os meus lábios falam do resto da minha tristeza
e eu escureço lentamente com o segredo das árvores
Maria Azenha
in " ao longe os barcos de flores"
18/07/11
Categoria: Literatura - Poesia
P. I. M.
de Azenha, Maria
recenseador: António Couto Viana, 1999
Apreciação:
Ao ler este novo livro de poesia de Maria Azenha, em que a autora identifica, o mundo actual como um manicómio, apresentando-se ela própria como possessa de loucura, numa linguagem essencialmente surrealista, que domina com invenção e beleza, lembrei-me daquela opinião crítica que o modernismo, ou melhor, o futurismo do Orpheu motivara, apadrinhada, até, pelo eminente académico Júlio Dantas: Literatura de Manicómio. Vivemos, hoje, quase um século depois destes vanguardismos. Após o Concretismo dos anos 60, dificilmente vejo no horizonte poético português mais ousadias. Maria Azenha não foi além da Escola de Bréton e de Césariny, na forma (muito agradavelmente clássica, por vezes), mas traz-nos a novidade do seu retrato poético, com traços panfletários mas autênticos, fascinante de pensamento, rico de sortilégios, onde, até, o simbolismo de Camilo Pessanha espreita e encanta.
in António Couto Viana- leitura gulbenkian-
P. I. M.
de Azenha, Maria
recenseador: António Couto Viana, 1999
Apreciação:
Ao ler este novo livro de poesia de Maria Azenha, em que a autora identifica, o mundo actual como um manicómio, apresentando-se ela própria como possessa de loucura, numa linguagem essencialmente surrealista, que domina com invenção e beleza, lembrei-me daquela opinião crítica que o modernismo, ou melhor, o futurismo do Orpheu motivara, apadrinhada, até, pelo eminente académico Júlio Dantas: Literatura de Manicómio. Vivemos, hoje, quase um século depois destes vanguardismos. Após o Concretismo dos anos 60, dificilmente vejo no horizonte poético português mais ousadias. Maria Azenha não foi além da Escola de Bréton e de Césariny, na forma (muito agradavelmente clássica, por vezes), mas traz-nos a novidade do seu retrato poético, com traços panfletários mas autênticos, fascinante de pensamento, rico de sortilégios, onde, até, o simbolismo de Camilo Pessanha espreita e encanta.
in António Couto Viana- leitura gulbenkian-
13/07/11
Leio o poema de Maria Azenha e sonho. Leio o poema de Maria Azenha e também ouço aquela música dos ramos, dos ventos entre as folhagens. E até sinto o perfume dos eucaliptos no mais alto das serras. Rios azuis escorrem da montanha. Sons de cristalino e puro violino, sons de água, de vento, sons.
Meu pensamento coroado de ventos elevados voa nessas nuvens. Do poema:
às vezes basta uma palavra : árvore
e ouço a música dos ramos
correndo transparente
como um rio azul
a sua voz é água
um violino puro
coroado de vento
e
nuvens
maria azenha
***
in
Rogel Samuel
http://literaturarogelsamuel.blogspot.com/
e
http://www.portalentretextos.com.br/colunas/cronica-de-sempre/rogel-samuel-a-palavra-arvore,189,6475.html
16/06/11
Queria dormir contigo.
Queria dormir contigo como se não fosses um ser humano,
Dormir distâncias em que nos afloramos…
Dormir da mesma maneira que os pássaros .
Os corpos aborrecem-se de tudo,
partidas, partidas!,
árvores, pedras,
como a si se fossem contagiando…
Tocamo-nos? Não nos tocamos?
E de repente não há mais sons no mundo.
Os anjos paralisados em corpos alfabéticos
são lugares de vertigem de calvários infinitos.
Junto a ti não durmo.
Fitam-nos frutos, por vezes, perto de arcanjos.
Outras os seus corpos derrubam-nos.
Soltam música num lugar embaciado da matéria
no fulgor dos muros…
Queria dormir contigo como se não fosses um ser humano,
evitando os sapatos virados para a escuridão,
suprimindo paredes, tetos, o ranger do silêncio no tapete dos soalhos…
E as palavras como coisas cosidas aos olhos
num horror quotidiano,
caindo em teclas pretas
apodrecendo a noite,adiante…
Nos meus ouvidos zunem abelhas pousadas num prato sujo .
maria azenha
in "cavalo em fuga"
Publicado por m.a. 1 comentário:
07/06/11
06/06/11
05/05/11
Publicado por m.a. Sem comentários:
Poços de luz
Rogel Samuel
A mais bela contradição. Aquela luz da escuridão do poço?
Azenha inverte os sentidos do poético, em:
***
poços de luz
(maria azenha)
fui à procura da palavra
que sonhei esta noite
há um espelho nas paredes da rua
um espelho gigante
as letras chegam-me por poços rodeados
de diamantes
crescem dos braços para a lua
o silêncio
uma ciência que se prolonga
no sangue
há praças onde esculpir o sol
***
Azenha faz da arena da rua um espelho, gigante espelho, nas paredes. O escuro poço é feito de luzes de diamantes esculpidos, onde se mergulha na solidão da alma. Estendem os braços para o céu, estão vindo do sangue, - o mundo de Azenha é todo multirefletido de espelhos - ela já escreveu um livro assim - são as alças de alcançar o brilho do sol, de um sol esculpido nas ruas, publicitário, exposto, onde a escritora está nua e em sangue... E onde estará a palavra sonhada?
Etiquetas: por Rogel Samuel
20/04/11
à Maria Azenha
e a todas as avós deste país
esculpo um grito de revolta
no sorriso
casto
da criança que se entretém
a falar sozinha frente a um écran
de televisão
não me vê e eu mergulhada
na angústia do porvir
não percebo se brinca
cria
ilusões ou procura fugir ao medo
de estar só
- pobre criança reflexo de nada
roubam.te os sonhos
destroem.te o futuro e
tu
resistente aos escombros
sorris
por gabriela r martins
http://cantochao.blogspot.com/
02/02/11
Maria Azenha nasceu em Coimbra . A primeira vez que li a sua poesia foi através da colectânea «Anuário de Poesia - Autores não publicados», editada pela Assírio e Alvim em 1984. Redescobri-a agora.
Etiquetas: flor do cardo
14/01/11
Já não leio versos, digo, livros
escrevo o que vem com o hálito da espuma
um sinal vindo de terra que movimenta o espaço
constrói na boca um vocábulo de ar por cima
um não falar de coisa alguma mas o que está por baixo
e no entanto há um pássaro na língua que adeja numa asa azul
versos são sementes plantadas em hortos de chumbo
livros, frutos apodrecidos em alheias mãos
sou ave extrema que humilha o céu no chão
***
maria azenha
in http://antologia.blogs.sapo.pt/tag/maria+azenha
09/01/11
Nova Série
2011
Número 11
2011
Número 11
Etiquetas: Direcção de Maria Estela Guedes
01/01/11
Publicado por m.a. Sem comentários:
a tarde não está para versos e a noite
irá varrer todos os passos do primeiro dia do ano.
é no hall de entrada das ruas, junto aos caixotes de lixo,
que lisboa desaba.
há quem diga que as plantas não passam fome,
nem sofrem de solidão.
vendo bem ou vendo mal qualquer verso magoa
maria azenha
2011-01-01
in http://literaturarogelsamuel.blogspot.com/
15/12/12
Num sapato de Dante. Este é o título do novo livro da
poetisa portuguesa Maria Azenha, que já está à venda no Brasil. A edição é da
Escrituras Editora com o apoio do governo de Portugal – Secretaria de Estado da
Cultura e Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB).
Segundo a autora, “o poema também é feito de palavras por inventar, servindo-se das coisas do mundo: solidão, noite, folhas, lâminas. Facas, lábios. Aranhas. O cansaço que se esconde nas dobras de todas as alvoradas. Trocando as voltas às palavras de Maria Azenha: O poema é um louco que queima os pensamentos. O que é um poema? O poema é uma criança que atravessa a rua ‘com uma flor de cinzas na boca’ .”
In : http://www.portalentretextos.com.br/noticias/maria-azenha-novo-livro-ja-a-venda-no-brasil,1655.html
Segundo a autora, “o poema também é feito de palavras por inventar, servindo-se das coisas do mundo: solidão, noite, folhas, lâminas. Facas, lábios. Aranhas. O cansaço que se esconde nas dobras de todas as alvoradas. Trocando as voltas às palavras de Maria Azenha: O poema é um louco que queima os pensamentos. O que é um poema? O poema é uma criança que atravessa a rua ‘com uma flor de cinzas na boca’ .”
In : http://www.portalentretextos.com.br/noticias/maria-azenha-novo-livro-ja-a-venda-no-brasil,1655.html
06/12/12
A poesia de Maria Azenha é um algoritmo em que as incógnitas conspiram, e tornam-se cúmplices do silêncio e do infinito. É uma matemática feita de objetos fractais, roturas para com a normalidade. Um testemunho sobre o que vagueia sem limite ou função. Um voo rasante nos abismos dos céus. A palavra “mudou-se para o teto”, como o corpo, “num sapato de Dante”.
“Avisa a autora”, diz João Lutas Craveiro no texto das orelhas do livro, “que o poema também é feito de palavras por inventar, servindo-se das coisas do mundo: solidão, noite, folhas, lâminas. Facas, lábios. Aranhas. O cansaço que se esconde nas dobras de todas as alvoradas. Trocando as voltas às palavras de Maria Azenha: O poema é um louco que queima os pensamentos. O que é um poema? O poema é uma criança que atravessa a rua ‘com uma flor de cinzas na boca’ ”.
Título: Num sapato de Dante
Autora: Maria Azenha
Coleção Ponte Velha
Gênero: Literatura Portuguesa Contemporânea/Poesia
ISBN: 978-85-7531-439-5
Formato: 14 X 21 cm, brochura
Páginas: 80
Escrituras Editora
Brasil
http://triplov.com/triplo2/2012/12/05/num-sapato-de-dante-colecao-ponte-velha/
Pode encomendar em :
http://www.artepaubrasil.com.br/products.php?product=NUM-SAPATO-DE-DANTE
Pode encomendar em :
http://www.artepaubrasil.com.br/products.php?product=NUM-SAPATO-DE-DANTE
30/09/12
Alguns sinais de ouro breve
e a flor de agosto
que investiga o rosto
e se despede de uma folha de fogo
nela desliza o silêncio vivo
a pluma do vento
e alguns versos
ampliando a música do sol
alguns sinais de ouro
breve
estendendo o corpo sobre
um mar de mel
http://www.triplov.com/novaserie.revista/numero_32/maria_azenha/index.html
01/08/12
19/07/12
Programa. Como no Cinema
Vozes:
Aníbal Cabrita
Maria Azenha
Baby Sandy & Mister-X
Textos:
Almeida Garrett (Viagens na Minha Terra)
Maria Azenha
Música:
Howie B
KLF
Richard Strauss
Giacomo Puccini
José Mário Branco
in:
COMO NO CINEMA- TSF
22/05/12
Queria dormir como dormem as romãs ao fim do dia
Abraçadas com ternura ao sangue dos poentes
Queria dormir como dormitam as veias do vento
Cortando os pulsos à sombra da água das nascentes.
Queria cortar as mãos num só dia como fazem as fontes
Num segundo tocar os lábios da lua com mil anos de silêncio
Derramar prata na boca das minas com planetas de luz nos cabelos
E estrelas de cinzas e pombas cobertas de ouro.
Queria com o coração flutuando no altar das sombras
Cobrir-me num instante com o manto da aurora com coroas
E grinaldas de sinos e passando por mil lagos vermelhos
Com a minha boca podre de joelhos pedir rosas e cerejas.
Queria derrubar com beijos de relógios o corpo exangue das papoilas
Com pequenas sílabas de pedreiros e atravessar o rio onde choram.
E cortaria os pulsos nos túmulos com gritos e facas enormes
E morreria no meio do outono com os seus sacos de lágrimas
E espalharia colheres de vermelho pelas cidades às golfadas
Em dormitórios de relâmpagos com beijos diante de escadas
Ah, ninguém me fale agora!
Não posso responder a nada!
A minha língua tocou a sombra de um recém nascido
Procurando a água nas raízes da Aurora!
As grutas estão molhadas de pranto e as estrelas fulgentes
Correm a pedir trabalho na oficina das romãs.
Há imensas janelas com trajes de fora de oiro e branco
E versos de orvalho puro num purpuro relâmpago!
E chegam anjos vestidos de sol em sábado de Aleluiah
Circulam com os olhos cheios de vozes nas lâmpadas das laranjeiras
Anjos de rostos de azeite e coração assombrado escarlate.
Maria Azenha
2012-04-06
in MallarmargensRevista de Poesia Contemporânea
Abraçadas com ternura ao sangue dos poentes
Queria dormir como dormitam as veias do vento
Cortando os pulsos à sombra da água das nascentes.
Queria cortar as mãos num só dia como fazem as fontes
Num segundo tocar os lábios da lua com mil anos de silêncio
Derramar prata na boca das minas com planetas de luz nos cabelos
E estrelas de cinzas e pombas cobertas de ouro.
Queria com o coração flutuando no altar das sombras
Cobrir-me num instante com o manto da aurora com coroas
E grinaldas de sinos e passando por mil lagos vermelhos
Com a minha boca podre de joelhos pedir rosas e cerejas.
Queria derrubar com beijos de relógios o corpo exangue das papoilas
Com pequenas sílabas de pedreiros e atravessar o rio onde choram.
E cortaria os pulsos nos túmulos com gritos e facas enormes
E morreria no meio do outono com os seus sacos de lágrimas
E espalharia colheres de vermelho pelas cidades às golfadas
Em dormitórios de relâmpagos com beijos diante de escadas
Ah, ninguém me fale agora!
Não posso responder a nada!
A minha língua tocou a sombra de um recém nascido
Procurando a água nas raízes da Aurora!
As grutas estão molhadas de pranto e as estrelas fulgentes
Correm a pedir trabalho na oficina das romãs.
Há imensas janelas com trajes de fora de oiro e branco
E versos de orvalho puro num purpuro relâmpago!
E chegam anjos vestidos de sol em sábado de Aleluiah
Circulam com os olhos cheios de vozes nas lâmpadas das laranjeiras
Anjos de rostos de azeite e coração assombrado escarlate.
Maria Azenha
2012-04-06
in MallarmargensRevista de Poesia Contemporânea
21/03/12
ACTUALIDADE
Poetas cabo-verdianos encontram-se pela primeira vez 21 Março 2012
Mais uma vez, Cidade Velha está na boca do mundo, e volta a fazer História ao acolher o I Encontro Nacional de Poetas de Cabo Verde esta quarta-feira, 21 (dia Mundial da Poesia). Uma iniciativa inédita realizada a três mãos: Sociedade Cabo-verdiana de Autores, Biblioteca Nacional e Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago (CMRGS). O evento que será filmado pelo realizador Júlio Silvão, atraiu olhares de poetas de vários cantos, que aplaudem a iniciativa de pé.
O programa poético começa cedo na Cidade Velha, e está recheado: uma arruada, workshops, sarau e feira do livro. Esta jornada que já desperta grande interesse, em Cabo Verde como no estrangeiro, leva, .
Num país de mar, de música e de poetas o evento adquire espaços quase místicos porque inatingíveis, é a expressão do próprio Ser. Daí, participantes e organizadores pensarem criar a secção cabo-verdiana do Pen Clube, que é a maior organização mundial de escritores, pela liberdade de expressão poética. A Carte Internacional do Pen consagra o principio da internacionalização, porquanto a poesia não conhece fronteira.
O evento que será filmado pelo realizador Júlio Silvão foi saudado por poetas de Angola, Espanha e São Tomé que já enviaram poemas e mensagens à organização. Até ao momento tinham chegado à Cidade Velha as loas de José Luis Mendonça, de Angola; Ed.Mulato, Francisco Weyl, Ronaldo Werneck e Tere Tavares, do Brasil; Manuel Moya, Paco Rivera, Saez Delgado, de Espanha; Maria Estela Guedes, Maria Azenha, Sara Canelhas, Teresa Tudela, Aurelino Costa, Fernando Fitas, Jorge Velhote, Mário Galego e Olinda Beja, de São Tomé e Principe.
José Luis Tavares e José Luis Hoppfer Almada, os poetas cabo-verdianos da Diáspora, formalizaram com poemas a sua "presença".
Idem para Tchalé Figueira que desde Portugal mandou o seu compromisso com a poesia das ilhas.
Do lado de cá, o prémio Camões de literatura, Arménio Vieira; Jorge Fonseca, actual Presidente da República; Corsino Fortes, Danny Spinola, Daniel Medina, Vera Duarte, David Hoppfer Almada, António Monteiro e Helena Lisboa já garantiram presença neste I encontro nacional de poetas cabo-verdianos, que vão ter ao seu lado os portugueses Joaquim António, Emídeo e Nuno Reboucho.
http://asemana.sapo.cv/spip.php?article74110&ak=1#ancre_comm
20/03/12
19/03/12
JANELA POÉTICA (IV)
TUDO ESTÁ EM ABERTO
Maria Azenha
Tudo está em aberto à minha volta.
Nada é preciso dizer.
Vou ao encontro da morte
para retirar do dia
a sombra de uma sílaba
por crescer,
argila pura
iluminada pelo corpo
na linha do horizonte,
fruto incendiado pela lua
(A poeta portuguesa Maria Azenha nasceu em Coimbra. Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra. Exerceu funções docentes nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. É membro da Associação Portuguesa de Escritores. Sua última obra poética intitula-se De Amor Ardem Os Bosques)
in http://diversos-afins.blogspot.pt/2010_03_01_archive.html
23/02/12
Talvez até a Vida
seja simples.
Os meus lábios são , por exemplo,
feitos de vento
e a minha voz é uma cortina de fumo
para me defender do frio.
Lembrei-me um dia
de cortar os dedos
para não mais escrever poesia.
(Nunca chorei tanto
em toda a minha Vida!...)
hoje tenho a convicção das dunas,
sei que os meus cabelos
escrevem 365 livros por ano
e procuro sozinha o Infinito.
Maria Azenha
Coração dos relógios
Editora Pergaminho, 1998
http://mal-situados.blogspot.com/search/label/maria%20azenha
Os meus lábios são , por exemplo,
feitos de vento
e a minha voz é uma cortina de fumo
para me defender do frio.
Lembrei-me um dia
de cortar os dedos
para não mais escrever poesia.
(Nunca chorei tanto
em toda a minha Vida!...)
hoje tenho a convicção das dunas,
sei que os meus cabelos
escrevem 365 livros por ano
e procuro sozinha o Infinito.
Maria Azenha
Coração dos relógios
Editora Pergaminho, 1998
http://mal-situados.blogspot.com/search/label/maria%20azenha
07/02/12
cercados de ouro e âmbar. comovem-se como as criançasdepositam ao crepúsculo páginas de bondade e vento .
há amigos que ainda não nasceram e chegam do futuro.
outros,em fragmentos de luz, foram-se embora
a partir de fissuras do poema. e chamam-me para dentro.
e vivem em pomares brancos.
de um amigo a outro, por vezes, cabe a sombra de uma escada
e aprendo a falar por degraus. e digo amor, ave, instrumento
saudade. e sou um rio de pequenos ramos a anoitecer na água.
por vezes encostam o ombro a uma nuvem. ou barco.ou asa
emprestando os seus dedos líricos à página escura do livro
que estou a ler. e são um dia azul muito quente
movido a ar e lume. e sinto-me crescer num arbusto de ternura.
os amigos dormem. estão de olhos abertos. sabem tudo
o que as crianças querem dizer. e são a luz dos meus olhos
quando fico cega. penso-os para toda a eternidade.
são diamantes rodeados de fogo e lágrimas.
Maria Azenha


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