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21/12/09


Alguns e outros poemas - " de amor ardem os bosques"




I



Pesei a minha melancolia e angústias:
uma tonelada cada uma,
o que significa que cada uma se prende e atrai de igual modo à Terra.
verifiquei no entanto que a quantidade de massa corpórea de que sou portadora
não me mortifica, e todos os meus livros não pesam mais de 20 quilos,
o equivalente a uma criança de dois anos de vida.
lembrei-me de aferir o peso de uma caneta que normalmente me escreve:
vinte e poucos gramas, pouco mais,
a mesma atracção que a Terra exerce sobre a minha colher de sobremesa.
inquietei-me , e fui pesar a Terra: a agulha não saiu do zero.
(a Terra não se atrai a si mesma.)
reiterando o procedimento quis conhecer o peso de deus :
verifiquei que eu e deus tínhamos pesos iguais.



II



Na neve primeira ofereci-lhe o sangue, na segunda e na terceira
o negro e o branco.
Nu, o pelicano, de peito amplo
retira da sombra da noite
o rosário do manto.



III

alva morada



Queria semear-me nas algas da casa
num refúgio fundo
antecipar o meu cipreste de neve
sobre as raízes da terra,
para quando os relógios da floresta me viessem chamar
batendo à porta de minha alva morada
eu dissesse:
“ aqui já ninguém está”



IV

alquimia



Na cozinha dormem as minúsculas laranjas,
são quase duas horas da manhã.
O luar entrou pelos lírios da casa,
já lá estive perdida antes, e mais só.
A noite, uma página onde os ourives do sol
trabalham na mais completa escuridão.
Escondidos do tempo,
adiantam-se para as montanhas.
As suas vozes tornam-se cada vez mais amáveis e estranhas,
clamam da distância.



V



Respira a neve no encosto alvo da madrugada:
rosa branca de água no pedestal da montanha
naufrágio da prata ou de minúscula aranha
que nos cedros do coração vem, exacta,
quebrar a dália do mármore.
O vidro , reflectido nas palavras do chão,
recomeça
buscando em cada superfície pombas de claridade



(...)


leia ainda no TRIPLOV - ESTELA GUEDES - "alguns e outros poemas de Maria Azenha".

O prazo de validade da escola





o prazo de validade da Escola
está fora do Um
entrego-me nas horas a polir as unhas ao Todo

o buraco da fechadura do mundo
está sujo

as empregadas
fecham as portas e marcam faltas
no supermercado onde vivo

escrevo no quadro está calada vânia
sem a metafísica do sujeito além do mais
o teorema de pitágoras foi de certeza roubado
da internet para testar a professora do armazém

deviam todos vestir a mesma bata para não se distinguir
a bélgica da alemanha da espanha e por aí fora
e também o país às terças feiras
quando toda a gente vai fazer compras
ao armazém de george orwell

as refeições continuam a ser repressivas
ninguém sabe o que come "está bem"
mas ficámos uns com os outros por causa da noção do todo

Maria Azenha
in "pura coincidência"



12/12/09


***


( para maria azenha )

há muito tempo os poemas
jaziam no jardim abandonado
folhas secas
plantas tímidas
entre a estatuária de
deuses
e alegorias
de mármore

mas a rainha das musas
os despertou
e os fez
novamente falar
como quem experimenta desconhecidos
discos de vinil
deixados por um antigo
no fundo do melhor armário



Rogel Samuel

in "novos poemas de Rogel Samuel"

11/12/09

06/10/09


há fotografias como punhais













há fotografias como punhais

Rogel Samuel


Para ela fotografias há que são punhais, poemas tamém, os poemas todos já foram escritos, reescritos, ela só faz este pedaço do oficio, o oficio das trevas, das argilas, dos pedaços de argila, impressos na chuvas, nos ventos, nas folhas noviças, o pai, a mãe ja partiram, e se foram numa voragem de passado remoto, a moça feia de varíola nunca amada que na taberna de Vladivostoque se ofereceu a Joseph Kessel, como pouca gente sabe, daquela guerra, deste verso, quase desconhecida guerra, mas ela lá esteve, e trouxe o verso, e por isso os outros versos todos já foram escritos, são chagas, são punhais crescendo bem como fogo, porque tudo é um problema insolúvel...

há fotografias como punhais. e poemas também.

todos os poemas que escreverei já foram escritos
dou-me apenas ao ofício das trevas
de os revelar em pedaços de argila

neles todos estão impressos a chuva e o vento
e as folhas noviças dos séculos e
meu pai e minha mãe que já partiram
esvoaçando num passado remoto

e também a rapariga feia e bela desfigurada pela varíola
que nunca fora amada porque não era bela
e que numa noite na taberna de Vladivostoque
se ofereceu derradeiramente a Joseph Kessel

talvez pouca gente saiba deste verso
que nunca terá sido dito deste modo
e foi acontecido durante a guerra sino-japonesa

quase ninguém esteve lá para o ver

mas eu estive. trouxe -o comigo.
é exactamente por esta razão que os meus poemas

já foram todos escritos.

são como chagas alastrando e crescendo em searas de fogo

estando entre a terra e as estrelas.

sei apesar de tudo porque li Juan Gelman
que cada lágrima é um problema insolúvel







MARIA AZENHA
A chuva nos espelhos


in "ROGEL SAMUEL"

05/10/09


as vogais de água





As vogais de água

Rogel Samuel



Azenha nos fala de lugares (sagrados) onde chegam sons misteriosos milagrosos estranhos
sons de vogais de água, talvez de chuvas, talvez de fontes, talvez de mares, novos e
reunidos por assomos de memória, por redes vertiginosas de emblemas, de entoações
concentradas por palavras, por luzes e lanternas, por velas em "ii", por projetos
diluídos em água, em feminina água, em espelhos de água, onde transporta seus sonhos
de um lado para outro, abrindo a fórceps um buraco nos espelhos...






vogais de água
há lugares onde chegam vogais de água
lugares novos espantados que assomam à memória
por redes vertiginosas

as suas entoações concentram-se em palavras fabulosas
palavras luminosas sur-
preendidas pelos castiçais dos ii

um projecto de água

digo:

transportar o sonho de um lado para outro
abrir com toda a força um buraco nos espelhos

MARIA AZENHA
A chuva nos espelhos

in "ROGEL SAMUEL"

***

in " descer pelos dias"- foto de Maria Costa

28/09/09


da criação à edição




"O Poeta só o será quando a sua imaginação for além da imaginação do Universo"- António Maria Lisboa


Momentos registados:


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1.Maria Azenha lendo Poesia inédita de Fernando Esteves Pinto


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2. Maria Azenha e Gabriela Rocha Martins interpretando Poesia com as luvas de Aprendizes



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3. Outro momento de poesia gestual


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4. Gabriela Rocha Martins e Daniel Vieira
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5. Daniel Vieira e Lisete Martins
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6. Inês Ramos e Fernando Esteves Pinto
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7.Inês Ramos, Fernando Esteves Pinto, Gabriela Rocha Martins, Daniel Vieira e Lisete Martins.





Intervenientes: Fernando Esteves Pinto, Gabriela Rocha Martins, Lisete Martins, Maria Azenha, Maria Costa, Daniel Vieira, Adão Contreiras.

Moderadora: Inês Ramos.



08/09/09


há letras e letras







Lançamento de CD - "O mar atinge-nos" de Maria Azenha
com apresentação de Maria Gabriela Rocha Martins
e momento musical de Paulo Pires (Grupo Experiment'arte).








Excerto do texto de apresentação:




(...) “O Mar Atinge.nos”, de Maria Azenha, é um CD de maturidade, um vinho que se vai degustando gota a gota, faixa a faixa, e que nos toca, quer através de uma doce melancolia que perpassa ao longo dos sons da guitarra portuguesa, quer nos rituais em que as palavras, ductéis, com ela, guitarra, participam.
Raros são, hoje em dia, os Poetas que, como Maria Azenha, detêm esta capacidade de abrir as suas gavetas para delas retirar referentes sociais – sempre presentes mas nem sempre legíveis -, neste gesto tão nobre, quanto transgressor, que a escrita implica.
Com efeito e em síntese, ouvem-se, neste projecto, ecos de uma mestria simbolista e, Maria Azenha, ao "jogo subtil das palavras" contrapõe "um silêncio no outro lado da palavra", isto é, os seus poemas podem viver bem alto ou remeter-se ao silêncio, por mais audível que este seja. Uma vez por outra, os poemas encontram um ritmo de corcel, um ritmo de estro inspirado, sendo, ainda de considerar, as suas preocupações sociais com a transformação do mundo.
Se a fragmentação em guitarra/voz/sons/palavras foi o caminho escolhido por Maria Azenha para dar corpo a este belíssimo Poema, no qual os referentes constitutivos estão claramente definidos, o conjunto das faixas delimita, com uma complexidade comovente, o território dos afectos, nunca totalmente revelado, das sensações, das recordações, da realidade gritante, dando vida a muitos dos seus fantasmas.
Repudiando simulacros, Maria Azenha (re)constrói.se sobre a poalha do tempo, ao repudiar o formalismo lírico ou ao acentuá.lo - caso, por exemplo, do poema com que abre o CD - sempre que a narrativa, imposta pela guitarra, o exige.
Não estamos muito longe da verdade quando afirmamos que, em "O Mar Atinge.nos", Maria Azenha percorre, mesmo quando desarmada, os labirintos da natureza humana, dissecando.os, em busca da sua essência.
E assim, termino,
rendida ao deslumbramento que este belíssimo projecto, da minha “irmã”, Maria Azenha, me provocou……
****************************************************


Photobucket




"escrevo com uma lágrima do mundo
numa caixa de rosas com espinhos.
depois deito-me num quarto feito com paredes de papelão,
cubro-me com plástico e vou para um prédio
fotografar os meus pés ,sem descanso."*
.
.
.
agora "tenho medo" - sorris - solto o pássaro que se aprontou ao voo na sombra de um quarto onde outrora os papéis se descolaram .há nas paredes lastros rubros de sangue .são fios finos de silêncio por onde escorrem as palavras dúcteis que se prolongam nos teus dedos .teclas e sei que ousas .mãe ."agora tenho medo " da criança que estende os braços para dentro do sorriso e balouça o corpo no brilho azul do mar ."tenho medo" da mãe prenha de afagos que se vê num beijo fechado em si mesmo ."tenho medo" da mulher que desafia o tempo qual gaivota em voo plano dentro do coração vazio .ousas o olhar a fim de repetir - tanto (a) mar - na opacidade intransponível da indiferença ."tenho medo" quando abres os olhos na finitude imprevisível do porvir ou quando pétala viva - sorris - consciente do transitório e no não medo abres valas para um dia o sofrimento fenecer
cansado das ruínas dos dias


*Maria Azenha.
apontado por gabriela rocha martins in " the last dance"





22/08/09




o coração gasta-se

foram escritos a sangue os poemas
que hoje escrevi com o teu nome
todos pintados com as minhas mãos no tear
das ruas
áridas em vozes
à beira do rio passava
o álbum fresco das folhas mortas
do meu coração
perdidas há tanto tempo
como os bilhetes que te escrevo sem resposta

pouco haverá já que me prenda

pouco

encontrei hoje um cego

que parecias tu nos olhos

Maria Azenha
in "A perca"


21/06/09


Las Palabras




Las palabras son como hojas
No saben cuando están fuera de lo real,
Por ejemplo la palabra silencio,
Comienza por un "s" y quiere decir otoño,
Es la menos mortal.
Otras
A veces atraviesan las hojas de la noche
Y ponen su oído en el mar
Que se escribe con tres letras
Como
Tres escalones
Sagrados
Esta quiere decir eternidad
Purísima alegria.

Poema de: Maria Azenha (Blog Bosque Azul: http://coracaoazul-mariah.blogspot.com/)

in " SUSURROS" de Margarita Parada



12/06/09


poema para maria azenha





sua abalizada fala
de quem com a poesia se intima
sopra sim sobre essas salas
um manto de estrelas perfeitas

Rogel Samuel
in "novos poemas de Rogel Samuel"

04/06/09


o mar atinge-nos



O Mar atinge-nos




Maria Azenha acaba de lançar um CD de poemas, intitulado O Mar Atinge-nos. A escritora, ex-professora de Matemática da Escola António Arroio, tem voltado à escola e participado com regularidade em actividades culturais. Desta vez, veio Ouvir o Silêncio a Ler e agraciou-nos com três exemplares do CD para a biblioteca.


maria azenha - a rosa de el Saron




A Rosa de El Saron
(a Henrique Dória)

e eu que aprendi quase tudo e nenhuma coisa
sobre a vida e sobre a morte
sobre os rostos que me rodeiam
e alguns deles me atiraram pedras ao coração

quando à luz da noite me deito
extasiada pelas chamas do fogo
que me consumiram as mãos
já não sinto dor:
estou dentro dos teus olhos.

faço parte dessas longas chamas
como de uma confidência
esperando que apareça o outro Sol
e não pergunto ao mendigo como se sente
nem ao cego como vê nem ao que não anda
porque ficou na estrada
eu própria me converto no mendigo e no cego
e no que ficou preso aos seus próprios pés.

por isso sonho descobrir todas as estrelas
que me caíram do firmamento
e faço parte como vós dos raios da aurora
das cores imensas do arco-íris e do vento
das montanhas das serras
dos ecos e das visões
dos misteriosos rios que passam pelas aves e pelos homens
do desfile admirável das formigas
que me arrancaram as lágrimas e agora correm
como tesouros guardados na terra em areia húmida

desejo ver-me reflectida nos olhos das crianças
contemplar a minha irmã palmeira que voou da minha infância
para ficar aqui junto a vós no meio da página
onde vamos explodindo todos juntos na poeira

tudo isto sinto quase ninguém vê
e não pergunto nada
de cada encontro guardo um tesouro
e devolvo-o porque se mudou para o nosso comum destino
ao vaguearmos pelas praias com seus antigos náufragos

e o que encontrei é como um pássaro antes do amanhecer
a Rosa de El Saron que não conhece Ocaso

inclinando-se a teus pés na palavra mais doce

Maria Azenha


ligações associadas:triplov



maria azenha - a rosa de el Saron


in Artes e Letras- Escola Artística António Arroio


27/05/09


dos olhos de meu pai





Tenho saudades dos olhos de meu Pai
eram um poço à roda, transparente, onde brincava à corda
sem sobressaltos.
A palmeira, em frente, era a guardiã da casa.

Minha mãe ensinava letras aos pássaros e aos pobres
no muro da praia do quintal
onde, às vezes, pousavam vozes em vez de rosas.
E fazia saias das calças de meu pai viradas do avesso
para levar à escola,
era um país de antigamente .

E uma bandeira foi crescendo para fora dos meus ossos
por detrás das grades,
em páginas de sol e liberdade.

Aprendo nos relâmpagos da chuva a palavra começo.
Sem os olhos de meu pai não conheço o vento
A enfeitar os galhos,


maria azenha

in Ao longe os barcos de flores

25/05/09


segunda-feira, 25 de Maio de 2009












maria azenha - o mar atinge-nos




in Novelos de Silêncio




Livraria Barata2009, Maio, 24, lisboa


1

O MAR ATINGE-NOS, de Maria Azenha
Por Risoleta C Pinto Pedro

Como não se trata de um livro de poesia mas de um CD, não vou falar dos poemas, vou falar do que ouvi, do que não tendo lido, li.
Forma um todo que não sei se começa no poema, porque o poema sabia que a guitarra, digo, a sonoridade, existia. E a guitarra sempre soube da existência dos poemas. E das vozes. Mas esta voz não pretende rivalizar com a sonoridade das guitarras, não se chega à frente, é a guitarra que recua às vezes, outras vezes é a voz, passa pelos intervalos dos sons e a guitarra vai lendo a partitura no poema.
Foi a esses espaços que fui buscar o texto.
O mar atinge-nos começou por ser nome de blogue e agora de CD.
No blogue temos as palavras escritas, aqui as palavras ditas. E as guitarras: o silêncio é o que têm em comum a música e as palavras.
O primeiro poema dá o mote e o tom: mar, vento e memória, uma forma de caminho. Assim diz a voz. O tema são sempre as palavras, ou a poesia ou o silêncio.
Eu já conhecia alguma desta música dos poemas e das guitarras. Mas não os ouvira ainda juntos.
Alguns poemas são muito curtos, às vezes é a música que se cala para os ouvir, enquanto a voz vai falando sobre filhas e sobre mães, trevas e caos. Quase tudo é sinónimo de pedidos de socorro, e tudo é poesia.
Outras vezes é a voz que silencia para ouvir a guitarra, não estão em diálogo, estão em sintonia, são os dois lados de um mesmo todo.
Enquanto a voz decompõe as palavras, a guitarra decompõe os sons. Ambas são tristes. Não há como não dizê-lo. De uma tristeza plena e pena, assumida, confirmada, talvez porque reunida.
Alguns poemas mais longos são uma espécie de labirinto onde nos perdemos entre fala e fala; só de lá saímos seguindo o rasto da guitarra que se ouve ao longe de onde vem a luz, enquanto seguimos o caminho das formigas, das crianças e das árvores.
Tudo se passa na página, tudo se passa no lirismo, quase não se vê se não for o som elevando as aves, como pássaro, o concerto para voz serena e guitarras.
Todas as faixas falam, todas as faixas tangem, não há aqui vozes a solo. Às vezes a música corre e a voz deixa-a ir, pára, silencia, que é a melhor forma de perseguir.
Às vezes a fala fala sobre música, outras vezes a música quase fala como palavra, sem que o tenham combinado, sem que o tenham deliberado.
À medida que vai estando no tempo, a voz senta-se ao colo da música, e sente-se quase a música aconchegando a voz, baixando o som para que não acorde do sono.
A poesia apenas não é confessional pela transformação quase expressionista das imagens , que pelo excesso escondem o que tornaria insuportável a realidade. A guitarra dá um tom narrativo ao lirismo exposto das palavras.
A palavra sai da dor e entra-nos como dor. Talvez daí a música, como se quisesse dizer, tal como Magritte, “isto não é uma dor”, e no entanto nem todas as guitarras do mundo e muito menos a guitarra portuguesa conseguiriam dissimular esta realidade que no silêncio e no sussurro grita. E trina.
As imagens são cinestésicas, isto é, misturam constantemente sensações, juntando ao ouvir, a pele, o sabor, a cor e o ar.
É uma poesia que conta um mundo que se incendeia, que se afoga, que se agonia, que se esvai em sangue, que cega, mas também um mundo que ilumina, eleva, acena, e que voa.
Comum a todos, uma aura de mistério e uma imensa beleza, dolorosa beleza, menos dolorosa pela beleza a tornar-nos suportável a exposição da dor.
Termina com o mar, digo, com a mãe. E o som do mar. Aqui a guitarra cala-se e devolve cada som ao mar. Regressa mais para o meio do poema quando a mãe se transforma em estrela, ou partícula, ou asteróide, ou deusa, ou deus.
É então que o mar nos atinge e nos tinge de azul infinito.
Quando a própria dor se apaga em música e azul, porque uma mãe nasceu. De ventre de filha, ou de voz de poeta, no som da música, o lugar onde todos os milagres são possíveis.

Maio 2009

21/05/09


024 - Maria Azenha e Pedro Azevedo



25.10.2006 | Produção e voz: Luís Gaspar

Maria Azenha e Pedro Azevedo são os dois autores que ouviremos no programa de hoje. A Maria Azenha já está nas estrelas segundo a nomenclatura do Estúdio Raposa, isto é, o seu trabalho já anda pelas livrarias. Do Pedro, por enquanto, só posso dizer que é repetente no Lugar aos Outros.

in Estúdio Raposa



13/05/09


chuva marítima





da vogal colorida à palavra-cor




L'Oeil a-t-il été fabriqué sans aucune connaissance d'Optique [...]? Et ces choses dûément expliquées, ne paroît-il pas par les Phoenomenes, qu'il y a un Etre incorporel, vivant, intelligent, tout-present?

Isaac Newton, Traité d'Optique

***

O soneto de Rimbaud, "Vogais", é a mais célebre atribuição de cores a elementos linguísticos: o A é negro, o E é branco, o U é verde, etc.. De forma explícita ou implícita, a poesia está em geral impregnada de cores. E se por vezes dado poema parece incolor, algo do domínio da Óptica contém ainda - luz. Mais do que a cor, a poesia não passa sem a claridade do dia, tal como não passa sem a escuridão da noite, sem os jogos de claro-escuro, ou sem as imagens no espelho, e os efeitos da luz na humidade do ar ou na água. Mas dará a poesia a ver essas cores e efeitos? Na palavra "arco-íris" observamos as sete cores do espectro solar? A poesia pertence à ordem das artes que apelam para o nosso olhar, como a pintura, a fotografia ou o cinema? Serão as cores da poesia susceptíveis de ser percebidas e interpretadas de diferentes modos, consoante o olhar normal, cego, ou daltónico, de quem lê? Enfim: para que servem as cores na poesia? Para pintar retratos, paisagens, naturezas-mortas? A palavra "verdura" dá mais verde à relva, a palavra "rosa" torna mais rosadas as flores, e a palavra "vermelho" atrai o nosso olhar irresistivelmente para a graça de um jardim? Quando Camões escreve: "Descalça vai para a fonte/ Lianor pela verdura", a cor pinta um lugar ou uma situação de risco? As cores da poesia são prismáticas ou pigmentos? Eis algumas perguntas a que cada poeta responde à sua maneira, como teremos ocasião de ver.

Para os textos que tenciono escrever visando dois objectivos - o de divulgar a poesia portuguesa contemporânea a pessoas das Letras, e de o fazer segundo métodos interdisciplinares, que me permitam apresentar os trabalhos em encontros com pessoas das Ciências - escolhi duas balizas teóricas, que espero forneçam alguma ordem e metodologia na abordagem da luz e das cores: Wittgenstein (1) e Newton (2). Wittgenstein procurou elaborar uma lógica das cores, tentou entender os conceitos que nos permitem falar delas, e nesse percurso fornece ferramentas que é possível usar na exegese dos poemas, como a classificação "cores de superfície" e "cores de profundidade", a que eu chamaria também cores explícitas ("Lianor pela verdura") e cores implícitas, absolutas, essenciais ou objectais, por se tratar de objectos de tal cor (cal, esmeralda, ouro) e não de superfícies pintadas de branco, com tinta esverdeada, ou douradas pelo poente.

Quanto ao físico Isaac Newton, que estabeleceu uma das primeiras teorias científicas das cores e da luz, o seu peso no meu trabalho é mais de guia espiritual. Até ao século XX, Newton era tratado sobretudo como expoente do iluminismo, das Luzes no seu sentido mais racionalista e avesso à etiqueta obscurantista que então se apunha, e decerto com motivos, à religião. Depois descobriram-se os seus textos alquimistas e uma nova face se lhe rasgou como janela, ou como Janus, o deus bifronte. O mais singular na obra de Isaac Newton, que foi divinizado, cujo nome durante décadas foi atribuído aos filhos dos seus crentes, haja em vista o Isaac Newton português, botânico portuense do século XIX, o mais singular na sua obra, do meu ponto de vista, é ter ele reservado para as duas últimas, ou para a última página do seu Tratado de Óptica, as mais significativas das raras reflexões sobre Deus que se lhe conhecem na obra científica. Pertence ao domínio da sua filiação em sociedades iniciáticas, como a literatura romanesca tem denunciado nos últimos anos, a ideia de identificar Deus com a Luz. Interessante então que seja nos livros sobre Óptica, na parte final, Perguntas que servem de conclusão a toda a obra, que se faça essa luz no espírito de Newton. Mais interessante ainda é verificar que os raros biólogos contemporâneos que não são ateus utilizam como prova da existência de Deus, e portanto como argumento contra uma hipótese de evolução devida ao acaso, a pergunta que Isaac Newton se faz a si mesmo acerca da perfeição dos olhos. Os embriologistas não ateus tornaram lugar-comum invocar a perfeição do olho dos cefalópodes como prova de que só Deus o poderia ter criado. Pergunta Isaac Newton, em tradução nossa de texto em francês: A que se deve o facto de a Natureza nada fazer em vão? Que impede as estrelas fixas de cairem umas em cima das outras? E prossegue, usando, tal como Wittgenstein, a retórica da interrogação para tornar inegáveis as suas afirmações: Terá sido o olho fabricado sem nenhum conhecimento de Óptica? Um Ser vivo, incorpóreo, inteligente, omnipresente, devia patentear-se a nós, acrescenta (Livre III, pág. 545), se fosse correcta a explicação dos fenómenos.

Sem nenhum critério especial, apenas socorrendo-me das obras que têm permanecido em cima da minha mesa nos últimos meses, reli, entre outros, Carlos de Oliveira, Herberto Helder, Mário Cesariny, Almada Negreiros, e passei os olhos por outros tantos livros recentes de novos poetas, ou de autores ainda não reconhecidos como poetas, caso de Pedro Proença, por dominação absoluta sobre eles da categoria de pintores.

O que li não chega a cem livros nem nada que se lhe assemelhe, por isso não posso invocar percentagens para realçar resultados nem para comprovar asserções. Não obstante, uma conclusão avanço desde já, por contrariar um preconceito - ou pré-conceito - com que arranquei para o trabalho: o de que os poetas-pintores escreveriam versos mais coloridos do que os não pintores. Esperar-se-ia que nos poemas de pintores como Cesariny, Almada Negreiros, Alcina Marques de Almeida, Pedro Proença, Maria Azenha, etc., a cor e a luz tivessem incidência muito mais ampla do que nos poemas dos artistas só da palavra. Nem por isso. Em uns e outros a luz jorra, mas a cor aparece com moderação nos pintores-poetas mencionados. Em Almada Negreiros, por exemplo, aparece mesmo muito pouco, se bem que, quando aparece, possa surtir efeito gritante, por se tratar de uma nova cor, nunca dantes vista - se é possível ter a percepção dela -, como é o seu "azul-cu", aliás "azul-cú", na flechante ortografia da época (3) .

Até agora, foi em dois poetas que não são pintores que mais cores e aparato óptico encontrei: Carlos de Oliveira e Herberto Helder. Em António Ramos Rosa há bastante cor, tal como assinalei em "Obra ao verde", dominando precisamente o verde. Este poeta é susceptível de abalar a minha provisória e prévia conclusão de que não é por ser pintor que o poeta usa muito a cor, pois Ramos Rosa também é um artista plástico. A excepção, de qualquer modo, só confirmaria a regra.

Carlos de Oliveira, a quem não conheço obra de artes plásticas, é o mais cromático dos poetas lidos. Não apenas isso: no seu "Trabalho Poético" (4) encontramos tudo quanto Isaac Newton possa ter ensinado, sobre reflexão, refracção, decomposição da luz no prisma óptico. E também encontramos aparelhos ópticos vários, bem como as máquinas da arte da luz, fotográficas e de filmar, sem esquecer os foto/gramas. Já fora da poesia, no romance Finisterra, como esquecer essa arte de produzir imagens a quente, como ele põe em cena de modo tão obsessivo, com a pirogravura?

(1) Ludwig Wittgenstein, Anotações sobre as cores. Edição bilingue. Tradução de Filipe Nogueira e Maria João Freitas, revista por Artur Morão. Lisboa, Edições 70, 1987.

(2) Traité d'Optique sur les reflexions, refractions, inflexions, et les couleurs, de la lumière. Par M. le Chevalier Newton. 2e éd. française. Trad. par M. Coste, Paris, Montalant, 1722.

(3) José de Almada Negreiros, Obras Completas. 4. Poesia. Lisboa, Editorial Estampa, 1971.

(4) Carlos de Oliveira, Obras. Lisboa, Editorial Caminho, 1992.

Autor(es): Júdice, Nuno
Ano de Publicação: 2005
in litteratus

as flores do mal de Maria Azenha





Rogel Samuel

Maria Azenha vai pelas oblíquas montanhas onde as mulheres desenham com os dedos os rostos muçulmanos velados escondidos falidos mulheres em terror elas não se querem mostrar e se escondem como freiras absurdas que dizem "nao ria"... Azenha deu voz a essas mulheres mudas veladas cansadas de sofrer cansadas de morrer...

***
AS FLORES DO MAL


Maria Azenha




pelas montanhas oblíquas
desenham as mulheres
o rosto com os dedos
rostos sempre tapados
para o terror dos vivos
não sei se elas se mostram
o que ao mundo querem dizer
freiras absurdas do vento e do medo
murmuram: “irmão, não deves rir”
não sei se elas se mostram
não sei se elas vão ser
não sei se elas agora choram
se cantam um burburinho forte
ou se são fadas com gemidos
sempre sempre sempre a dormir

não sei se elas são estátuas
não sei se são de vidro
se podem cantando chorar
pelos filhos e pelo marido

que grito hão-de dizer?
que grito hão-de soltar
se no exílio têm ficado
cansadas de morrer?

e o vento sopra
há poeira no deserto
sobre as montanhas oblíquas
afinal quem muito sofre
é quem nunca diz sofrer

de que serve tudo isto
de que serve isto tudo
com este véu sinistro?
quem foi que as viu nascer?

pássaros mortos.
um dia apodrecem.

e alá expõe a sua terrível máscara
repleta de sangue e horror



in ROGEL SAMUEL

11/04/09


poços de luz





















A mais bela contradição. Aquela luz da escuridão do poço? Azenha inverte os sentidos do poético, em:



poços de luz



fui à procura da palavra
que sonhei esta noite

há um espelho nas paredes da rua
um espelho gigante

as letras chegam-me por poços rodeados
de diamantes
crescem dos braços para a lua

o silêncio
uma ciência que se prolonga
no sangue

há praças onde esculpir o sol

maria azenha


"Azenha faz da arena da rua um espelho, gigante espelho, nas paredes. O escuro poço é feito de luzes de diamantes esculpidos, onde se mergulha na solidão da alma. Estendem os braços para o céu, estão vindo do sangue, - o mundo de Azenha é todo multirefletido de espelhos - ela já escreveu um livro assim - são as alças de alcançar o brilho do sol, de um sol esculpido nas ruas, publicitário, exposto, onde a escritora está nua e em sangue... E onde estará a palavra sonhada? "
ROGEL SAMUEL



in ROGEL SAMUEL



Talvez




Talvez até a Vida seja simples.
Os meus lábios são , por exemplo,
feitos de vento
e a minha voz é uma cortina de fumo
para me defender do frio.

Lembrei-me um dia
de cortar os dedos
para não mais escrever poesia.
(Nunca chorei tanto
em toda a minha Vida!...)

hoje tenho a convicção das dunas,
sei que os meus cabelos
escrevem 365 livros por ano
e procuro sozinha o Infinito.


Maria Azenha
Coração dos relógios
Editora Pergaminho, 1998.


in "lugares mal situados"

10/04/09


o cabelo e o mar:um poema de Maria Azenha




Wladyslan Slewinski (Woman Brushing her Hair, 1897)








para voltar ao princípio do mundo


sei de uma mulher
que penteava os cabelos ao sol
porque tinha no pensamento uma flor

sei que os lavava ao luar
porque tinha no coração uma corola

com a boca mordia o ar
e prendia os vestidos ao vento

era uma mulher sentada numa pedra
coroada por um lírio salgado na fronte

um dia
cortou os cabelos
atirando-os um a um ao mar


e disse: tece-me

e o mar inclinou-se para dentro
para tecer

o poema







Para surgir um poema é necessário se despir de ações que embaçam o modo mais simples de tecer um poema, que é a vida. Despir-se de tais ações é cortar os cabelos, pois estes por si só não tecem o poema. Os fios de cabelo fazem esquecer do que propriamente um poema se faz. Para esse pensamento que se esquece na flor; para esse pensamento que volta o seu coração para uma corola, para esse pensamento que morde o vento, aprisionando-se a um vestido que se recusa a sentir o vento, preciso é levantar-se e cortar o excedente dessas ações.
Libertando-se do cabelo é que o feminino encontra a fertilidade do que pode gerar o poema: o mar. Entregar ao mar esses fios é deixar o poema tecer, dizendo a ele “tece-me”. Confiar no mar a atitude de ser com ele o poema revela a mulher que se liberta dos fios que a prendiam para doar ao mundo os fios que a unirá agora ao mar, ao mundo. União que a tecerá como verdadeira mulher, porque essa é ação mais simples “para voltar ao princípio do mundo”.

"lendo poemas" de Jefferson Bessa



03/03/09


cada palavra deve ser o que és






não escrevas a palavra pedra se não tens à mão
uma pedra
não digas a palavra água se nunca quiseste morrer
não penses a palavra fogo se o teu coração não arder

guarda vagarosamente cada som
silenciosamente trabalha o desenho de cada letra
porque a um poeta é reservado
o alfabeto
o fogo
uma escada de rubis

maria azenha


in-ao longe os barcos de flores



28/02/09


Escrever, para quê?


















Escrever, para quê?



"Não tem importância nenhuma escrever um poema", diz Azenha. E com isto ela sacramentou a verdade da causa secreta do poema, sua metafísica, sua origem, a fenomenologia de sua aparição.

Por quê o poema?

Azenha toca na essência da criação poética, onde tudo é segredo, labor oculto, o insondável do mistério, seu lacre, seu selo, seu silêncio.

O poema deve ser o que é, já se disse, não tem origem nem destino.

Nem tem razão, ou explicação.

O poema é "logos", e Logos, diz Wittgenstein, significa um discurso que não pode falar de si mesmo, a não ser que se coloque antes da possibilidade do próprio discurso. O processo do poema se concentra no interior dessa dimensão ilimitada de logos.

E essa ipseidade, a propriedade histórica da linguagem, da idéia do vôo de sua cultura.

Mas para quê?

"não tem importância nenhuma escrever um poema
a não ser a possibilidade de o não ter escrito."

A poesia luta com esta tendência de se ter e de se ver e de se perguntar pela utilidade de tudo. E utilidade com preço no mercado.

Pois, e se eu fizer algo da mais profunda inutilidade? E se eu mostrar o âmago a beleza do inútil?
Eu não quero melhorar a sociedade (pelo menos com o poema), eu não quero melhorar a mim mesmo.

Eu nada quero.

As árvores estão parindo gritos de flores, e ninguém, nenhum economista pergunta para quê, para quem.
As flores estão cobrindo os campos e não se cogitam em benefício de quem.
Qual a utilidade de uma flor? Melhor ainda: qual a utilidade do seu azul, da alegria de um céu de radiante beleza?
Aí está: o grande perigo, o terrorismo supremo é este - o ser que diz "nada quer", nada busca, e revela a beleza deste não buscar.

O homem que nada quer é o ser mais perigoso. Porque livre.
“Ninguém pode prender um homem livre, diz Khrisnamurti. Podem colocá-lo no fundo da masmorra, mas interiormente ele continua livre”.
É a liberdade, a liberdade da espera de nada, que rebenta qualquer amarra, qualquer muralha. Ilimitada.
A liberdade dos homens livres, os poetas, os profetas, os santos.
A crítica de Nietzsche vem justamente do conceito de valor.

Sua genealogia determina conceitos de valor, noção de valor que implica num investimento crítico contra os valores que aparecem como princípios pressupostos e contra valores de que derivam ava1iações.

O pensamento crítico de Nietzsche tem dois movimentos - todas as coisas e todas as origens de qualquer valor se referem a valores; para depois referir esses valores a outra coisa que seja a origem dos valores e que decide o valor dos valores.

Mas quem o juiz, qual o tribunal que decide o valor dos valores?

Aí está.

E se nada vale?

O método genealógico de Nietzsche busca a origem do próprio valor dos valores de onde emana a avaliação.

Ele se opõe a um valor absoluto e a um valor utilitário.

“Não encontraremos nunca o sentido de qualquer coisa (fenômeno humano, biológico ou mesmo físico), se não conhecemos qual é a força que se apropria da coisa, que a explora, ou que nela se exprime”, diz ele.

E quanto à arte?

Nietzsche não pergunta: “O que é o belo?”. Mas: “Quais as forças que o tornam belo ao apropriar-se dele?”

Assim, a essência da arte reside na descoberta da força que a possui e que se exprime nela.

No nosso caso, a força da liberdade, a força do sentido do silêncio da liberdade.

Que quer o poema? Mas o que é que ele quer?

O que é que quer aquele que ama ao amar, aquele que fala ao falar, aquele que crê?
O que é que quer aquele que se diz “desinteressado”? O que é que quer aquele que pensa isto? que procura a verdade?

- A vontade de poder, responde o filósofo, que não procura o poder, mas que o dá.
A vontade de poder concede poder. E não o arresta.
O método de Nietzsche é diferencial. Diante das coisas, pergunta: “Quem?”
Nele, a vontade de poder é um princípio ativo, plástico e genealógico. A vontade de poder não é a força, mas o elemento diferencial que determina uma relação das forças (a quantidade e a qualidade das forças em questão).

A beleza é uma força.

Significa a afirmação do múltiplo, do devir, do acaso.

É o acaso é o que está no poema de Maria Azenha. O acaso das árvores a parir as flores, a parir gritos gratuitos de flores. Gritos livres. Gritos do poder da ciência materna, do silêncio que há em tudo o que nos cerca.

O múltiplo, o devir, o acaso do universo, na sua ordem misteriosa, onde "só o amor flutua".

Eis o poema:

"não tem importância nenhuma escrever um poema
a não ser a possibilidade de o não ter escrito.
abrigo-me entre árvores prestes a parir gritos em flor,
na materna ciência do silêncio,


onde só o amor flutua."

Rogel Samuel -in http://literaturarogelsamuel.blogspot.com/




24/02/09


"O Mar Atinge-nos" já chegou às Baleares (Espanha)





O mar atinge-nos, poesia-guitarra portuguesa, un CD de Maria Azenha
He recibido hace unas semanas el disco O mar atinge-nos, de la poetisa portuguesa Maria Azenha. El CD reúne 20 poemas recitados por su autora y acompañados de guitarras portuguesas. He disfrutado con este trabajo. De entrada, la voz de Maria, rítmica y profunda, tiene la capacidad de transmitir casi tantos matices como sensaciones evoca el mar. Además, en este caso, su voz rompe con el “maleficio” de que los poetas son malos declamando sus propios textos. Los poemas son una maravilla.
Quiero que disfrutéis con el video Chuva marítima en el que recita uno de los poemas de O mar atinge-nos, con las olas rompiendo al fondo.


O mar atinge-nos
Enviado por 
maatsete




Chuva marítima

cultivo rosas brancas
em varandas a ocidente
daqui avista-se o mar
e o mar é grande

chove.

atravesso um caminho branco
chove.
o mar entrou pelo meu coração
chove.


- Transcribo otros dos poemas de este trabajo: Desde que a luz se fez artificial y Ontem e hoje, Mãe!



Desde que a luz se fez artificial
desde que a luz se fez artificial ficámos orfãos
juntaram-se nas cidades os solitários
para pôr em comum a solidão,
- fumadores de papel, como teria dito Pavese -
puxados pela corda negra da fome.
há livros de olhos postos no corpo. vêem-se de noite.
de vez em quanto gritam. e nascem folhas que
uma vez abertas não se conseguem mais fechar

doem os olhos
de tanto lhes sentir a foice.


Ontem e hoje, Mãe!

Mãe,
ainda que na Árvore da Vida habites,
sinto a ausência dos teus beijos.
O nosso amor é como um vaso de leite derramando branco
nas nuvens.
As células do nosso corpo,
pequeníssimas estrelas,
comungam todas da mesma revolução.
Mãe,
a comunhão é um estado de autoconhecimento.
e a matéria veste-se para o Inconsciente:
primeiro, sono.
depois, sonho.
por fim,
rendição.

Tu és Deus, e eu também.
Quando te chamo, avanças
quatro,
cinco,
seis mil anos.
Quando entramos em sintonia com os astros
sentimos a alegria do comunismo
das árvores em tuas mãos.

A Vida é um hiper-estado de consciências.
Os crimes são anti-humanos.
As formigas, radiogaláxias que estabelecem comunicações
através das suas pequenas antenas.
Os poetas fazem parte desta sociedade de partículas.

Mãe,
as últimas ondas de luz do universo
transformaram-se em humildes campos terrestres.


Mãe,
não consigo dividir-me por zero.
Tudo está em expansão, quero dizer:
cada vez mais próximo dum ponto central.
Cada centro do espaço
é um novo projecto.
E a luz, a harpa de Thales,
que um dia disse: " Tudo está cheio de Deus".

Eu digo, deus ou deuses
porque as nossas almas são partículas enraizadas nos céus.
Sabes como os asteróides representam a mesma dança – são eles isotrópicos.
Cantam a Incriação.
E eu entro no câmbio,
- colho as sementes do espaço que não mais
existem no zero.

Ontem,
tornei-me photograficamente um quantum.

Alguém disse: " Vieste do Improvável e vais para o Improvável".
Movimentamo-nos em campos de energia. Dançamos.
Deles brota a sagrada estrela da Harmonia.

Mãe,
dizem os índios:
"Se temos um coração bom quando dançamos,
então chove."



PD para la autora
Maria, gostei muito do seu trabalho. Felicidades.


in El establo de Pegaso



07/02/09


A poesia da Matemática


Lindo e muito apropriado o texto. Como sempre digo, não há nada mais belo que o próprio Universo, a natureza e suas leis. Há uma grande poesia em tudo isto, fato que foi magistralmente mostrado por Richard Dawkins no livro “Desvendando o Arco-íris”. E, nisso tudo, não podemos esquecer que “Deus é o grande geômetra”. Isto é, o Universo (nele incluindo a vida e tudo o mais) é descrito pela Matemática. A Matemática é a linguagem da natureza. Não é mera coincidência que os teoremas matemáticos podem prever o comportamento da natureza. Isto é uma verdade profunda. Portanto, como a poesia é a beleza expressa em palavras, é claro que há grande poesia na Matemática. Mas há Matemática na poesia? Sim! Quando a poesia é metrificada isto é evidente. Mas, mesmo que não seja, todo poema possui um ritmo, uma ondulação musical no fraseado, coisas que refletem a Matemática que está por trás do som. E se a poesia, como no caso da concreta, é mais para ser vista do que para ser ouvida, então entra aí a geometria das formas. Das formas das próprias letras e da disposição delas na folha. Finalmente, como é o caso do artigo da Maria Azenha, o próprio tema da poesia pode ser a Matemática. Mais uma vez então vejo confirmada a minha opinião de que as pessoas ligadas às humanidades não podem se furtar de conhecer também ciências, especialmente Matemática.


Ernesto Von Rückert



05/02/09


A voz-poesia de Azenha em CD



A voz-poesia de Azenha em CD

Rogel Samuel


Ouço a voz entre as guitarras. A palavra, a poesia na capa de som, como uma espécie de escultura sonora.
A voz de Azenha é muito apropriado suporte de seu texto, ainda que sua poesia não seja oral, mas intelectual e simbólica. As guitarras portuguesas nunca estiveram tão prestes a dizer poesia como neste CD "o mar atinge-nos". Portugal é o mar. A poesia aqui se define como poesia-guitarra portuguesa. O mar é português, o mar azul. Portugal deixou seu sangue e seu passado no mar, no mar a conquistar, no mar a avançar, a buscar naquela ânsia de infinito que o levou às Índias e talvez o pôs a perder-se de si, como D. Sebastião.
Azenha faz a voz das mulheres viúvas desse Portugal que na praia depuseram seus mantos pretos sobre os ombros e construíram a pátria sozinhas. O mar atinge estas mulheres que ocupam os lugares dos muros e se cercam de águas.
O passado de Portugal é uma mulher enlutada, adornada de algumas pérolas e que "nasce a chorar".


olhou o pão na mesa e deixou cair
as mãos como sementes
para que tudo crescesse a partir
do chão

olhou o mar

e viu as lágrimas
das trevas
iluminadas pelo firmamento
....
as mães têm as mãos grandes


in - "Literatura" de Rogel Samuel



31/01/09


Ao ouvir " O Mar atinge-nos"

A MARIA AZENHA

Há pássaros pousados nos teus poemas
bandos sagrados são nua semente
florescem como dardos quando voam
Ouvem murmurar sem haver gente

Não estranho os rios de água
Correndo véus de palavras
Não estranho os pássaros
Não voam sozinhos na tua voz
Estranho-me eu e sou de horas
As horas de ouvir as horas sós

Voo contigo nesse pulsar do tempo
Perco-me e ausento-me da morte
Como um rio não vendido vivamente
Onde não assoma outro barco
Só brota uma guitarra levemente

Perdoa se um verso segue uma rima
Eu sigo só sei que estás no mar
E dás da água milenar
O assombro vivo numa pauta de escutar


JOSÉ RIBEIRO MARTO
in NAS MARGENS DA POESIA

21/01/09


O mar atinge-nos



O Mar Atinge-nos
temas: Sites e Blogues sobre Literatura
Créditos: http://omaratinge-nos.blogspot.com

[21-01-2009] Luís Carmelo
Os blogues com poesia e sobre poesia constituem um dos fenómenos porventura menos estudados dos últimos anos. De facto, na literatura, o 'papel' ainda continua a ter muita força. Como se a antiga relação entre a oralidade poética e a instituição escrita hoje se continuasse a projectar nesse 'lugar menor' que seria a rede. Nada mais enganador. Desde que os blogues passaram a criar um fosso e a abrir um campo próprio no espaço público – o que acontece com acuidade desde 2002 –, que este novo fôlego afirmação literária ganhou novos protagonistas, leitores e interactores. Destaco hoje o blogue "O Mar Atinge-nos", um entre muitos que se dedicam à filigrânica actividade de inscrição poética. Não se pode fazer "copy paste", avisa-se já. O que é pena, pois a divulgação será menor nesta breve resenha. Seja como for, de início (post de 13/1), o sinal da fertilidade é dado com depurada certeza: "Pega numa folha branca// com tenras letras desenha a erva viva/ entre as estrelas e o mundo.". O blogue é assinado por "mariah", apenas mariah em minúsculas. Pura economia que é revista na densidade que fecha o poema "é por isso que estamos todos": "só sei que nada sei disseram-te/ e é por isso que estamos todos/ com uma rosa morta diante dos olhos".
Não gostei muito das imagens e do design. Tenho que ser sincero. Mas a poesia, essa, está lá, quando o Mar nos Atinge, como uma lava muito forte, densa e trabalhada com ferramentas exigentes.
A visitar muitas, muitas vezes!

LC

***
nota: os textos são da inteira responsabilidade do cronista Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, cedência, difusão, distribuição, armazenagem ou modificação, total ou parcial, por qualquer forma ou meio electrónico, mecânico ou fotográfico deste texto sem o consentimento prévio e expresso da autora. Exceptuam-se a esta interdição os usos livres autorizados pela legislação aplicável, nomeadamente, o direito de citação, desde que claramente identificada a autoria e a origem.




14/01/09


14 de Janeiro 2009

Um coração da cor do mar

temas: Sites e Blogues sobre Literatura

[14-01-2009] Luís Carmelo ~


Chama-se Coração Azul e é um blogue apenas votado à poesia. O fundo, imóvel e floral, aparece com uma plasticidade incólume face à matéria poética que rola de alto a baixo, como se a compressão da passagem e a leveza do fundo se tocassem. Pulso a pulso. Os poemas são assinados por Maria Azenha.
No entanto, se pensa fazer o normal "copy-paste" neste blogue, logo verificará que não vai levar a melhor. Terá antes que ler, ler alto, ler como quem decora. E ficarão sempre retidos alguns salpicos, ou estilhaços que vão vibrando na fluidez apressada da rede. Não os escolho feitos da matéria poética mais emotiva, reactiva e imediata, mas antes da sobriedade que escapa às coisas respiradas no tempo do dia-a-dia.

Seja ao navegar nas margens do silêncio – "O corpo é silencioso/ habita o vidro dos relâmpagos" –, seja a responder satiricamente às próprias faúlhas do poema – "Porque este poema é feito com as duas mãos/ Embora escreva num pc da marca Toshiba" –, seja porque há sempre uma asserção sábia que explica melhor do que nada qual é a natureza mais transparente da poesia: "É um tempo sem projecto".

Creio que valerá a pena entrar neste espaço e lê-lo. Sobretudo no que escapa à necessidade do manifesto e que, por isso mesmo, se apega de outro modo ao perene e atemporal.

LC

nota: os textos são da inteira responsabilidade do cronista

Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, cedência, difusão, distribuição, armazenagem ou modificação, total ou parcial, por qualquer forma ou meio electrónico, mecânico ou fotográfico deste texto sem o consentimento prévio e expresso da autora. Exceptuam-se a esta interdição os usos livres autorizados pela legislação aplicável, nomeadamente, o direito de citação, desde que claramente identificada a autoria e a origem.




"um coração da cor do mar" in PNETLITERATURA-Luis Carmelo



11/01/09






"para voltar ao princípio do mundo"


sei de uma mulher
que penteava os cabelos ao sol
porque tinha no pensamento uma flor

sei que os lavava ao luar
porque tinha no coração uma corola

com a boca mordia o ar
e prendia os vestidos ao vento

era uma mulher sentada numa pedra
coroada por um lírio salgado na fronte

um dia
cortou os cabelos
atirando-os um a um ao mar

disse: tece-me

e o mar inclinou-se por dentro
para tecer

o poema


Maria Azenha In "A Chuva Nos Espelhos", Alma Azul,
Coimbra, 2008, p 9.




in "A Dispersa Palavra"

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