12/12/11
A propósito de A Sombra da Romã, de Maria Azenha
À fresca sombra da árvore da vida
Uma leitura
O Senhor Deus plantou um jardim no Éden, no Oriente.
Além disso, colocou a árvore da vida no meio do jardim, e também a árvore
do conhecimento do bem e do mal.
Génesis
Ao contrário do Génesis, que não nos diz de que qualidade era a árvore da vida, neste caso sabemos que é uma romãzeira, aqui transformada em romã por um processo de estilo. O estilo é a alma da poesia. Na poesia, o estilo é símbolo.
São 51 poemas, ou 51 bagos de romã. Ou 51 romãs? Ou cinquenta e uma romãzeiras? Ou cinquenta e um jardins? Talvez cinquenta e um Édens com suas cinquenta e uma sombras. Porque para cada árvore da vida existe uma árvore do conhecimento do bem e do mal. Para que possa ser reconhecida a vida. Estes poemas dispõem-se a ser lidos como quisermos ou como soubermos. Como pudermos. Saboreei os bagos como bafos, alguns como desabafos. Todos, como palavras para falar do impossível, como a chama que há no som, ou o sangue que há no sol, o orvalho que há no peito. Falam da natureza profunda ou alquímica das coisas. Do perfume ou essência do mundo.
Curtos, incisivos, cirúrgicos, experiências de lampejo que são e que proporcionam. Para quem se atrever a olhar a luz que não se limita a iluminar, mas incendeia.
Falam de sol, mas também da via que até ele conduz: o luar, os sonhos e a noite, o caminho mais direto para a luz.
Este livro abriu-me horizontes e mostrou-me outros mundos. Num deles, apercebi-me da nunca antes pensada semelhança musical entre as palavras língua e alaúde. Mais uma vez confirmo o que o meu coração sempre soube: que para além de todas as discussões científicas e as tendências que vão estando alternadamente na moda, quem olha a linguagem a partir de dentro, como uma criança ou um poeta, sabe que ela não é aleatória. Língua e lábios são alaúdes. Não duvido. Deus não joga aos dados, mais uma vez se prova.
Portanto, estes poemas podem também ser lidos como um pequeno tratado poético sobre a natureza das coisas e da linguagem. Ou um livro particular de estudo: “Estudo segredos”. E não será o mesmo?
Por outro lado, ocorreu-me que se eu tivesse de pintar ou de alguma forma representar estes poemas, fá-lo-ia com baixos-relevos de rendas, ouro e prata, incrustados de pequenos sinais de natureza, como bagos de romã, rebentos de ervas, salpicos de espuma da milionésima onda da praia ou gotas de orvalho. Seria obra de um instante. Porque há uma beleza que brilha assim.
Mas regressemos ao que diz. Observamos que mesmo no amor, isto é, no mundo, o grande palco de aprendizagem do amor, esta poesia aceita a guerra, não procura obsessivamente a luz. Sabe que é essa uma forma divina de aprender a encontrá-la.
Os versos têm olhos. Os olhos possuem uma visão profunda, como um raio x, vêem e dão a ver para lá do que do poema se vê; ouvem e dão a ouvir para lá de todos os sons; pressentem e fazem pressentir para lá dos sentidos.
Como toda a boa poesia amorosa é mística. Como toda a boa poesia mística é amorosa.
E geométrica. O círculo é a forma e o perímetro são os sonhos. Quanto aos planos de Deus, esses são desenhados a traços de rostos.
É da transfiguração, ao modo de Alice, com planetas que fulminam, e flores que nascem nos cabelos, que esta poesia se sustenta. Para exemplificar a beleza oculta do mundo, não encontro melhor imagem do que um “cântaro de sol que no deserto derrama linho e mel” ou uma boca onde “as aves fazem ninho”.
Mas talvez este livro tenha sido escrito para alertar o mundo para o maior dos cuidados, para o único necessário cuidado: “Sinto o perigo de passarmos perto das crianças, / De semearmos destroços de gelo no seu peito.”
Somos as crianças. Sempre fomos. Enchendo de gelo os nossos próprios peitos. Que o fogo da beleza, através daquilo a que poderíamos chamar a consciência poética, possa derreter este gelo antigo e substituí-lo por romãs doces, maduras e tenras.
Que assim seja.
Cheguei à última página. Regresso ao início. Mas agora, só eu e os bagos da romã. Digo, os jardins e suas sombras.
Risoleta C. Pinto Pedro
2011, Lisboa
27/07/11
os livros que leio são uma extensão minha
os outros estão escritos numa língua estrangeira
a esses vou arrancando as páginas até restar nas mãos
uma fogueira. depois imagino que alguém que passe por eles
me traga um lugar onde o sol me queime os dedos
os meus lábios falam do resto da minha tristeza
e eu escureço lentamente com o segredo das árvores
Maria Azenha
in " ao longe os barcos de flores"
18/07/11
Categoria:
Literatura - Poesia
P. I. M.
de Azenha, Maria
recenseador: António Couto Viana, 1999
Apreciação:
Ao ler este novo livro de poesia de Maria Azenha, em que a autora identifica, o mundo actual como um manicómio, apresentando-se ela própria como possessa de loucura, numa linguagem essencialmente surrealista, que domina com invenção e beleza, lembrei-me daquela opinião crítica que o modernismo, ou melhor, o futurismo do Orpheu motivara, apadrinhada, até, pelo eminente académico Júlio Dantas: Literatura de Manicómio. Vivemos, hoje, quase um século depois destes vanguardismos. Após o Concretismo dos anos 60, dificilmente vejo no horizonte poético português mais ousadias. Maria Azenha não foi além da Escola de Bréton e de Césariny, na forma (muito agradavelmente clássica, por vezes), mas traz-nos a novidade do seu retrato poético, com traços panfletários mas autênticos, fascinante de pensamento, rico de sortilégios, onde, até, o simbolismo de Camilo Pessanha espreita e encanta.
in António Couto Viana- leitura gulbenkian-
P. I. M.
de Azenha, Maria
recenseador: António Couto Viana, 1999
Apreciação:
Ao ler este novo livro de poesia de Maria Azenha, em que a autora identifica, o mundo actual como um manicómio, apresentando-se ela própria como possessa de loucura, numa linguagem essencialmente surrealista, que domina com invenção e beleza, lembrei-me daquela opinião crítica que o modernismo, ou melhor, o futurismo do Orpheu motivara, apadrinhada, até, pelo eminente académico Júlio Dantas: Literatura de Manicómio. Vivemos, hoje, quase um século depois destes vanguardismos. Após o Concretismo dos anos 60, dificilmente vejo no horizonte poético português mais ousadias. Maria Azenha não foi além da Escola de Bréton e de Césariny, na forma (muito agradavelmente clássica, por vezes), mas traz-nos a novidade do seu retrato poético, com traços panfletários mas autênticos, fascinante de pensamento, rico de sortilégios, onde, até, o simbolismo de Camilo Pessanha espreita e encanta.
in António Couto Viana- leitura gulbenkian-
13/07/11
Leio o poema de Maria Azenha e sonho. Leio o poema de Maria Azenha e também ouço aquela música dos ramos, dos ventos entre as folhagens. E até sinto o perfume dos eucaliptos no mais alto das serras. Rios azuis escorrem da montanha. Sons de cristalino e puro violino, sons de água, de vento, sons.
Meu pensamento coroado de ventos elevados voa nessas nuvens. Do poema:
às vezes basta uma palavra : árvore
e ouço a música dos ramos
correndo transparente
como um rio azul
a sua voz é água
um violino puro
coroado de vento
e
nuvens
maria azenha
***
in
Rogel Samuel
http://literaturarogelsamuel.blogspot.com/
e
http://www.portalentretextos.com.br/colunas/cronica-de-sempre/rogel-samuel-a-palavra-arvore,189,6475.html
:
16/06/11
Queria dormir contigo.
Queria dormir contigo como se não fosses um ser humano,
Dormir distâncias em que nos afloramos…
Dormir da mesma maneira que os pássaros .
Os corpos aborrecem-se de tudo,
partidas, partidas!,
árvores, pedras,
como a si se fossem contagiando…
Tocamo-nos? Não nos tocamos?
E de repente não há mais sons no mundo.
Os anjos paralisados em corpos alfabéticos
são lugares de vertigem de calvários infinitos.
Junto a ti não durmo.
Fitam-nos frutos, por vezes, perto de arcanjos.
Outras os seus corpos derrubam-nos.
Soltam música num lugar embaciado da matéria
no fulgor dos muros…
Queria dormir contigo como se não fosses um ser humano,
evitando os sapatos virados para a escuridão,
suprimindo paredes, tetos, o ranger do silêncio no tapete dos soalhos…
E as palavras como coisas cosidas aos olhos
num horror quotidiano,
caindo em teclas pretas
apodrecendo a noite,adiante…
Nos meus ouvidos zunem abelhas pousadas num prato sujo .
maria azenha
in "cavalo em fuga"
06/06/11
05/05/11
Poços de luz
Rogel Samuel
A mais bela contradição. Aquela luz da escuridão do poço?
Azenha inverte os sentidos do poético, em:
***
poços de luz
(maria azenha)
fui à procura da palavra
que sonhei esta noite
há um espelho nas paredes da rua
um espelho gigante
as letras chegam-me por poços rodeados
de diamantes
crescem dos braços para a lua
o silêncio
uma ciência que se prolonga
no sangue
há praças onde esculpir o sol
***
Azenha faz da arena da rua um espelho, gigante espelho, nas paredes. O escuro poço é feito de luzes de diamantes esculpidos, onde se mergulha na solidão da alma. Estendem os braços para o céu, estão vindo do sangue, - o mundo de Azenha é todo multirefletido de espelhos - ela já escreveu um livro assim - são as alças de alcançar o brilho do sol, de um sol esculpido nas ruas, publicitário, exposto, onde a escritora está nua e em sangue... E onde estará a palavra sonhada?
Etiquetas: por Rogel Samuel
20/04/11
à Maria Azenha
e a todas as avós deste país
esculpo um grito de revolta
no sorriso
casto
da criança que se entretém
a falar sozinha frente a um écran
de televisão
não me vê e eu mergulhada
na angústia do porvir
não percebo se brinca
cria
ilusões ou procura fugir ao medo
de estar só
- pobre criança reflexo de nada
roubam.te os sonhos
destroem.te o futuro e
tu
resistente aos escombros
sorris
por gabriela r martins
http://cantochao.blogspot.com/
Etiquetas: -nicoletta giuseppe
02/02/11
Maria Azenha nasceu em Coimbra . A primeira vez que li a sua poesia foi através da colectânea «Anuário de Poesia - Autores não publicados», editada pela Assírio e Alvim em 1984. Redescobri-a agora.
14/01/11
Já não leio versos, digo, livros
escrevo o que vem com o hálito da espuma
um sinal vindo de terra que movimenta o espaço
constrói na boca um vocábulo de ar por cima
um não falar de coisa alguma mas o que está por baixo
e no entanto há um pássaro na língua que adeja numa asa azul
versos são sementes plantadas em hortos de chumbo
livros, frutos apodrecidos em alheias mãos
sou ave extrema que humilha o céu no chão
***
maria azenha
in http://antologia.blogs.sapo.pt/tag/maria+azenha
09/01/11
Nova Série
2011
Número 11
2011
Número 11
Etiquetas: Direcção de Maria Estela Guedes
01/01/11
a tarde não está para versos e a noite
irá varrer todos os passos do primeiro dia do ano.
é no hall de entrada das ruas, junto aos caixotes de lixo,
que lisboa desaba.
há quem diga que as plantas não passam fome,
nem sofrem de solidão.
vendo bem ou vendo mal qualquer verso magoa
maria azenha
2011-01-01
in http://literaturarogelsamuel.blogspot.com/

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