03/12/08
sei que és um búzio ao anoitecer
e mando-te mil recados
pelas lâminas do vento
da tua boca brota uma fonte
é onde os pássaros não voam
e vêm beber-te
mas nem sempre as palavras chegam
para levar as estrelas aos teus olhos
nem eu sei dizer o teu nome
22/11/08
sempre me disseste
que os relógios nunca existiram
e que a Terra era um campo verde de paz
quando me abraçavas
colocavas-me uma coroa de rosas à volta dos olhos,
e eu via pássaros.
agora só a flor nua
no solitário dos rios permanece,
tornaste-te invisível.
sobre a poeira que te cobre o rosto
deixo-te o meu cartão permanente de visita:
coração que prepara a noite
reflecte na água
a luz
de
uma ferida.
Maria Azenha
in "Gotas de Poesia" - Brasil
um cardume de silêncios
move-se dia e noite
dentro das mãos
beleza que não cabe em galhos ou em ramos
de
palavras aquáticas
que irrompem também das árvores
em terno e incisivo barco
as mulheres carregam grávidas
frutos doces
em seus frágeis ramos
o poema encerra ali o estágio mais alto da verdade:
um livro-casa
um livro-água
com peixes brancos
o mundo inteiro fervilha
em folhas ofegantes
nas fontes
ressignificando o jardim das mãos
Maria Azenha
in "Gotas de Poesia" - Brasil
16/11/08
Nem sequer podemos ficar tristes
pertencemos a uma geração sem brinquedos a sério.
- os avós morreram. fecharam-nos para sempre em livros -
do coração dos poemas extraíram petróleo
fizeram dos barcos uma metáfora para cegar os olhos
não há quem nos faça acreditar em bonecas de trapos
nem em trapezistas de madeira para sonhar
silenciosos e fractais os relógios de ausentes cais
circulam sem gritos nas metrópoles
nem sequer podemos ficar tristes
ficámos todos tão velhos
***
Xadrez
Sobre a mesa jaz a minha pena
que se estende, em sombra, em um papel fantasma.
Quem escreve? Quem nele me assombra?
E me acode?
E me plasma?
Com o compasso componho o meu deserto.
Com a mão vou cruzando o vento.
Dou um passo.
Outro, mais incerto.
Em fios de seda regresso ao xadrez do tempo.
Poemas de Maria Azenha tomado de su espacio "o mar atinge-nos".
in "El Establo de Pegaso" - Espanha
Dois lados exactamente.
Para colocar em evidência a simultaneidade “dois”.
Nem o Antes nem o Depois.
O simultâneo de uma Realidade perversa.
Não teremos que repensar os conceitos de Paz e de Guerra?
E porque não de Vida e de Morte?
Maria Azenha, autora do livro de poesia «NOSSA SENHORA DE BURKA», lançado no mês passado em Lisboa, pela Editora Alma Azul.
1. O teu livro de poesia Nossa Senhora de Burka foi lançado pouco antes do início da guerra no Iraque. Parte do livro referencia-se à guerra (o lado A do livro designa-se Da Guerra). Trata-se desta guerra em particular?
De facto, trata-se também desta guerra em particular. Mas quero referir sobretudo o novo modelo das guerras desta actualidade. Quer queiramos ou não, também as guerras estão sujeitas a modelos. Vivemos no tempo dos modelos e das modelagens. O princípio da clonagem contém , a meu ver, um princípio de Modelagem.
2. O título, Nossa Senhora de Burka, como foi que o encontraste (ou como foi que o título te encontrou a ti?)?
É uma história curiosa. Antes do poema que veio dar o título ao livro, pintei um quadro com esse título. Digamos que o poema-escrito , que a seguir se tornou visível em forma de letra, já o era em poesia-quadro. Foi este quadro-poema que se transformou em poema-quadro. Uma inversão ao espelho da Realidade.
3. Há, digamos, no título uma ideia de multiculturalidade ou de um certo tumulto civilizacional... Que nos transmite esta imagem de «Nossa Senhora de Burka»? Refaço a questão: esta imagem quer ilustrar o quê? Uma similitude sobre a condição da mulher, confundindo os tempos e os espaços de uma submissão feminina? Porquê Nossa Senhora e porquê de Burka?
Esta imagem ,“Nossa Senhora de Burka” que se iniciou no quadro, mais tarde em poema sem quadro, quer ilustrar na fusão dos tempos e dos espaços, não só a condição da submissão feminina mas ainda os véus que o Poder , na forma de alguns poderes,lhe quer impor.
Isto explica uma das partes do título: a Burka. Mas a Burka que a Senhora usa, e é Nossa, se revela, também vela.
E vela a sua condição de Nossa e de Senhora.
Vela a condição feminina de Deus e de Sophia.
Revela, naturalmente, a desformatação das Sociedades , no único intuito do lucro, da fama, do efémero.
4. Porque razão encontramos no livro um lado A (Da Guerra) e um lado B (Da morte)?
Dois lados exactamente. Para colocar em evidência a simultaneidade “dois”. Nem o Antes nem o Depois. O simultâneo de uma Realidade perversa. Não teremos que repensar os conceitos de Paz e de Guerra? E porque não de Vida e de Morte?
5. Existem referências à América em ambos os lados do livro, e ao terrorismo: do lado Da Guerra as torres são abatidas, mas no lado B (que considerei mais singular) esse terror é (mais) vivido no plano individual, no plano da experiência sempre acessível e no domínio de qualquer quotidiano e biografia: «Cartas, nem pó!» é um exemplo do que refiro. Como avalias esta relação, entre o terror, ou os riscos que são apresentados duma forma planetarizada e quase aleatória, e as suas traduções para uma escala individual?
Entre um terrorismo global e um terrorismo individual, a meu ver, nada há que os separe. Como separar o átomo do seu campo unificado? Como separar o pensar e o sentir? Como separar as minhas respostas das minhas perguntas? Como separar a Burka de Nossa Senhora?
A escala individual é apenas uma imagem microcósmica da escala planetária. O planeta é um organismo vivo. As Sociedades vivem nele. Estruturam-se nele. Interagem. Não podemos isolar Sistemas. A separatividade é uma aberração para os Sistemas. Conduz-nos a vários “ismos”(especialismos,terrorismos, nazismos,etc).
6. Aqui impõe-se uma sub-questão a extrair do lado B e dos seus «testemunhos»: a obsessão pela normalidade quotidiana é sempre patológica? (Em que medida precisamos de rotinas?).
A rotina, embora testemunhe uma rota, na sua insistente repetição faz perder o sentido do roteiro. E sem roteiro não há rota. E sem rota não pode haver descoberta. Não creio que a rotina nos conduza a bom porto. A rotina modela o homem sem rosto nem destino.
7. Como te relacionas com a escrita (é o «outro lado» da rotina)?
A escrita é outro aspecto do ser. É o espelho onde “vejo” letras pintadas em forma de quadros. Ou se quiseres,por ser espelho, a escrita não figura em nenhum lado da rotina. Ela é o resultado de haver luz e trevas. Poderia alguma vez perguntar de que lado está o meu corpo?
8. Que tempos dedicaste a este livro (à sua produção/realização)?
O tempo do amor e da morte. O tempo do riso e das lágrimas.
9. E a realização de um livro (e deste livro em particular) é fruto de uma decisão ou é a posteriori que essa consciência se revela, por um conjunto de poemas com a afinidade necessária? Isto é, pensaste em escrever este livro, este mesmo livro, de uma forma absolutamente antecipada?
Em geral é “a posteriori” que essa consciência se revela. Este livro,em particular, é fruto das horas das trevas do mundo. Nunca premeditei um livro. Posso dizer que os livros que escrevi são, para mim , posmeditações. Nascem do Futuro. Por isso podem estar presentes.
10. Que angústias dedicaste a este livro? (é, talvez, a questão mais breve e difícil de responder, não é? Ciladas de amigo e entrevistador...).
Angústias capazes de despedaçar écrans, de suspender a corrente negra que atravessa a humanidade. Como se a poesia deste livro(se é que, nele, os leitores a encontram) pudesse “lavar” essa corrente negra da Guerra e da Morte com sílabas vindas da luz . Não quero acreditar que estes poemas tenham sido derramados em vão.
11.Que relação há (de percurso e de ruptura, porque um livro é sempre ambas as coisas, necessariamente) entre este livro, Nossa Senhora de Burka, e outros teus?
Este livro rompe completamente,a meu ver, com a paz dos cemitérios. Ele levanta-se da morte das estrelas. Este livro fala de uma luz diferente que os outros livros não contêm. Aqui ressoam palavras amargas que vieram dos desertos da Terra escritas no mais branco dos papéis. Os que ainda restam, ofertados pelas árvores que também ainda restam no planeta. (E quando acabarem as árvores? ) Será que ficaremos para sempre no ciberespaço,escrevendo o Poema, indefinidamente,infinitamente,interactivamente?) Bom, mas isto foi um pequeno desvio para poder continuar. Nos outros livros as palavras encontraram-me. Distraidamente. Embriagaram-me. Vinham carregadas de anjos e de asas. E isso envenenou – me.
12. Que relação há, ou é experimentada, entre a poesia e a pintura? Porque também gravas poesia em quadros... ou desenhas poesia em versos...
O único modo que tenho para ser, não são casas nem janelas abertas num 6º andar de uma avenida qualquer. Só existo quando escrevo.Ou melhor escrevivo com letras e cores. Tudo é escrita . Sofro desta inquietação que me impele a gravar poesia em quadros ou a desenhar poesia em páginas. Passo de uma tela para uma página naturalmente, ou vice-versa. Sendo assim, “ Nossa Senhora de Burka” é um livro que não começa nem acaba no livro propriamente dito. Continua-se na pintura.na fotografia,e em todas as outras páginas que forem encontradas com o mesmo plurívoco sentido do livro.
13. O livro ainda é essencial? Porquê/para que (quem) publicar em livro? (porque também editas pela internet, em poesia e gravuras).
Tal como a luz é uma ilusão provocada por certas ondas electromagnéticas também o livro o é. E quando compreendi isto, compreendi que a minha escrita era cega, todavia com um destino. Por isso procurei e procuro a verdade que me é ocultada pelas palavras escritas. Por isso mergulho na opacidade das palavras com a música possível. Quero dizer: ao provocar a escrita do livro compreendo melhor a natureza da minha cegueira. E vejo que as minhas vestes, feitas de palavras e de cores, podem ser mostradas de outras maneiras. Creio que publico de um ou outro modo porque não consigo inventar um outro processo de repousar no interior de um livro fechado. É um mal necessário , portanto. Perguntas-me ainda para quem eu publico. Não sei. Mas não é certamente para quem se julgue especado no Absoluto com uma “ Teoria do Tudo”. A minha mendicidade é escrever poesia em “ livros “. A minha riqueza é escrevê-la ,com letras invisíveís, fora deles.
14. Os sentimentos que se vertem para a escrita, e as solitárias personagens que os preenchem, onde os vais (des)encantar? O nadador de infinito, como a Dona Alice ou a menina da Caixa, como te aparecem ou te constrangem a escrever sobre eles?
Também o livro é preenchido pelas suas personagens. Essas personagens “saiem” do meu con(tacto) com o quotidiano. A partir desse contacto estruturam-se os sentimentos como se as personagens deslizassem como vectores-força para os sentimentos. A resultante é o poema.
15. ”Isto de ser poeta”...como é isto de ser poeta, livro dentro, mundo fora?
“Isto de ser poeta”(livro dentro)é saber que “qualquer coisa” se está a passar ... Então embrenho-me nos caminhos das palavras na esperança de me encontrar, isto é , de me lembrar de uma certa Sabedoria , do tempo em que os pássaros cantavam. “Isto de ser poeta”(mundo fora) é saber que a Poesia invade o mundo e se alimenta dele. Livro – dentro, mundo -fora, corresponde a um binómio de dois zeros que, ligados entre si , geram a imagem do Infinito.
16. O lado A do teu livro começa com um poema (que acaba) encurralado (?) entre o instante e o século... porque dizes «resta-nos um instante [...] um novo e livre século para ser»?
Esta questão levar-nos-ia a saber o que é o Tempo. Para o Ser, um instante ou um século são apenas deformações do Espaço. Vivem sobrepostos. E como dizes, e muito bem, o Poema fica encurralado entre essas duas deformações do Espaço. De facto o que nos” resta” é esse “instante”, ou “esse momento” em que as duas formas se identificam sem as várias máscaras da Forma. Quero dizer: quando a Consciência do Um prevalecer sobre a utopia dos números.
17. Porque escreveste «foi-me preciso matar»? Refiro-me à forma incomum de «foi-me preciso matar» em vez de «foi preciso matar-me» (claro que a morte é sempre, desse modo, incomum) e, também, à necessidade (foi, de alguma forma, preciso).
De facto a morte é sempre incomum. Tão incomum que também precisei de uma forma incomum para falar dela. Por mais teorias que tenhamos , sempre à mão de semear, a morte é-nos estranha. Tão estranha, que às vezes é preciso matar qualquer coisa, para ver como ela é. A morte é um “objecto-sujeito” que nos incomoda de várias maneiras. No caso concreto do poema a que ela se refere, houve essa “necessidade” de “ me matar” , para que se cumprisse na mesma desmedida do Universo um verso de grito e redenção. Só depois ela me pode cobrir com a sua poeira de esquecimento. Mas antes e com outro nome ( o nome, Mary, sob o qual eu lhe apareço) nestas cinzas de morrer, com a espada da luz negra termino o Poema. Ou darei início a ele-mesmo, outro?
18. O infinito parece dominar os últimos poemas de cada Lado do teu livro. A expressão está lá, no fim do poema ou no princípio dos princípios... Aprendeste da poesia ou da matemática a relação com o infinito (porque és docente de matemática)?
Não sei hierarquizar este Infinito pois a matemática pertence à poesia e a poesia à matemática. São duas faces da mesma unidade. Se a matemática sonha sonhos de grandeza, até mesmo alcançar as nebulosas, é por elas que descem magos com estrelas preciosas. Com elas me reconstruirei até à grandeza das nebulosas. Matemática e Poesia são caminhos de vaivem na árvore da vida. Por ela sobem e descem os Poetas de Heisenberg. Só uma coisa sabemos. Viemos do Futuro. Ser poeta é conduzir a Poesia pela mão da física quântica
19. Se a guerra é infinita a morte é (infinita?) o lado B de qualquer guerra?
Sim. Se a guerra é um processo infinito, a morte também o é. Por isso falar de guerra é falar de morte.
20. Há neste livro um pessimismo antropológico (assinalados pela guerra e pela morte como a ausência de uma solução para a humanidade?)?
Há de facto um pessimismo antropológico. A Humanidade esqueceu-se de sonhar. A Humanidade de tanto se fragmentar na materialização, distanciou-se da Origem. A Humanidade ao mirar-se ao espelho da matéria,quebrou-se em mil bocados. Fragmentou-se. Instaurou dentro de si um processo de Morte. E como a soma de todas as partes não dá o Todo, a peça inteira, já que é necessária uma outra operação para o Todo, criou para si própria o processo das máscaras. Instaurou na Sociedade o seu teatro. Assim, e ilusoriamente, não nos reconhecemos uns nos outros. Neste sentido, a Humanidade morreu. Actores de um destino que nos é esquecido, perdemos, não só o fio, como o próprio fio.
Entrámos no Labirinto.
21. Que esperança é lançada, no entanto, com a pergunta da contra-capa: «eu quero, e tu?».
A Esperança é desenhada em fórmulas da física quântica, no interior do Labirinto, isto é, do livro. Com poemas e subpoemas. E o Poeta, ao “sacudir a sonolência dos átomos da escrita”, fixa os olhos “naquilo” que outros ainda não olharam. Por isso não viram o Futuro. Os instrumentos da Poesia que o construam!
Eu vou erguer o mar neste lugar.
Eu quero.
E tu?
maria azenha
2003, Maio, 20, lisboa
09/11/08
Talvez até a Vida seja simples
Os meus lábios são por exemplo
Feitos de vento
E a minha voz é uma cortina de fumo
Para me defender do frio
Lembrei-me um dia
De cortar os dedos
Para não mais escrever poesia.
(Nunca chorei tanto
em toda a minha Vida!…)
Hoje tenho a convicção das dunas.
E sei que os meus cabelos
Escrevem 365 livros por ano
E
Procuro sozinha o Infinito.
Maria Azenha
in "As tormentas"
Nenhum vestígio
Nenhuma noite impura
Nenhum país de lume
Nenhuma serra ali.
A tua ausência é tão funda
Que não regressa a ti.
Maria Azenha
in "As tormentas"
27/10/08
Ao ler este novo livro de poesia de Maria Azenha, em que a autora identifica, o mundo actual como um manicómio, apresentando-se ela própria como possessa de loucura, numa linguagem essencialmente surrealista, que domina com invenção e beleza, lembrei-me daquela opinião crítica que o modernismo, ou melhor, o futurismo do Orpheu motivara, apadrinhada, até, pelo eminente académico Júlio Dantas: Literatura de Manicómio. Vivemos, hoje, quase um século depois destes vanguardismos. Após o Concretismo dos anos 60, dificilmente vejo no horizonte poético português mais ousadias. Maria Azenha não foi além da Escola de Bréton e de Césariny, na forma (muito agradavelmente clássica, por vezes), mas traz-nos a novidade do seu retrato poético, com traços panfletários mas autênticos, fascinante de pensamento, rico de sortilégios, onde, até, o simbolismo de Camilo Pessanha espreita e encanta.
António Couto Viana, 1999
Leitura Gulbenkian- "P.I.M." de Maria Azenha -Universitária Editora
Encontros Internacionais de
Poesia,
Nasceu em Coimbra. Licenciada em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra, é professora da Escola de Ensino Artístico António Arroio. Realizou diversas exposições individuais de pintura. Sob o seu próprio nome ou sob diversos heterónimos, publicou Folha Móvel (Edições Átrio, 1987) Hora Imediata (Edições Átrio, 1989), Pátria d'Água (Edições Átrio, 1991), A Lição do Vento (Edições Átrio, 1992), O Coração dos Relógios (Pergaminho, 1999), Concerto para o Fim do Futuro (Hugin, 1999), P.I.M. (Poemas de Intervenção e Manicómio) (Universitária Editora, 1999), entre outros.
Nasceu em Coimbra. Licenciada em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra, é professora da Escola de Ensino Artístico António Arroio. Realizou diversas exposições individuais de pintura. Sob o seu próprio nome ou sob diversos heterónimos, publicou Folha Móvel (Edições Átrio, 1987) Hora Imediata (Edições Átrio, 1989), Pátria d'Água (Edições Átrio, 1991), A Lição do Vento (Edições Átrio, 1992), O Coração dos Relógios (Pergaminho, 1999), Concerto para o Fim do Futuro (Hugin, 1999), P.I.M. (Poemas de Intervenção e Manicómio) (Universitária Editora, 1999), entre outros.
RECRIAÇÂO IMAGINÁRIA
Colóquio Letras,António Cândido Franco,pg150
A Chuva nos Espelhos; Maria Azenha
Para conseguir falar sobre este livro tive de fazer uma opção importante, definir aquilo sobre o que não posso falar. Porque é um livro infinitamente cheio de infinitos, como o espelho, o caos, as crianças e o mar. Só para exemplificar. Há outros. Eu escolhi não entrar no espelho, corria o risco de não sair. Escolhi não entrar no caos, corria o risco de não me distinguir dele, não ir pela mão das crianças que por aqui andam, corria o risco de ir parar para sempre a uma estrela. Escolhi seguir sempre o caminho do mar, como se faz nos labirintos, seguindo sempre por um dos lados, pelo menos é o que dizem os heróis que conseguiram sair. A escolha que fiz, o mar, também é perigosa, mas sempre dá para ir deixando migalhas que talvez os pássaros não comam e me possibilitem fazer o caminho de volta.
Este poema (não, não me enganei, não queria dizer livro, queria dizer poema, porque, para mim, é de um poema que se trata, poema em várias partes, o índice indica 31, mas essas são as visíveis, eu acho que são mais)… então este poema começa com vogais de água e sons abertos, e termina com o rumor no fogo, e sons fechados.
Segundo António telmo no seu livro Gramática Secreta da Língua Portuguesa, “… a fonética portuguesa é a demonstração de que cada língua possui uma estrutura sagrada.” Para mim, a poesia de Maria Azenha também o é.
No já aludido primeiro poema fala-se em :
“[…]
palavras sur-
preendidas pelos castiçais dos ii
[…]”
E não será por acaso que estes versos estão rigorosa e geometricamente no centro do poema, como Na Cartilha Maternal de João de Deus, esse outro cabalista, cujo esquema das vogais apresenta o “i” rigorosamente no centro, que no diagrama dos sephiroth corresponde ao lugar do Filho. Ou Tiphereth (sendo o “a” o do Pai e o “u” o do Espírito Santo).
A propósito disto, escreve António Telmo:
“Dirá o leitor que a situação do i no centro é ocasional e obedece tão só a razões fonéticas ou meramente estéticas. A caracterização posterior das letras e a sua distribuição por conjuntos levam-nos a pensar de outro modo.[…]”
Também a mim a linguagem dos sons neste poema me leva a pensar que nada do que se passa no mundo aqui criado é casual. Mas é, sim, um caso. Digno de atenção.
As abertas vogais de água são uma espécie de figura de convite, estão bem na abertura, e fazem aquilo que as figuras de convite fazem: convidam-nos a entrar. De outra forma seria difícil penetrar neste mundo, porque é o mundo da Flauta Mágica. O rumor no fogo com os seus sons fechados convida-nos ao silêncio a que se remete e nos remete o fim do poema. O fim que se vê, porque no mundo invisível o rumor permanece. E como fogo, cintila. Não crepita, para não se extinguir, guarda apenas um discreto rumor, o rumor do fogo lento dos alquimistas ou da cozinha destas mulheres de que aqui se fala. Que eu tenha contado, só mães são seis, mulheres são duas, e é interessante especular sobre esta relação matemática. Não vou fazê-lo, deixo-vos esse prazer.
Há ainda um rosto feminino, uma rapariga e um ser que é tratado pelo sujeito poético como “filha”. Mais três. E ainda: uma mulher chamada Lília, quase a versão feminina da flor, uma outra mulher chamada Perpétua, que por acaso ou talvez não, também é nome de flor, e uma pomba. E são mais três.
Resumindo esta poética matemática, temos seis mães, duas mulheres, três figuras do feminino, dois nomes e uma pomba.
Neste universo de “elas” encontrei-me ainda cinco vezes com a Lua, quatro com o chão, treze com o mar, quatro com as trevas, quatro com a noite, oito com a água. E não estou a contar as versões da água em nuvens, em gelo, em chuva, em fontes, em lágrimas…
Para equilibrar ou desequilibrar este conjunto, encontrei quatro vezes o Sol, quatro vezes as estrelas, sendo que uma é uma estrela magoada, três vezes o fogo, duas vezes o céu e uma vez o… pai.
Neste poema há mulheres com máscaras de rostos femininos (a “mulher” deste livro ela esconde-se atrás de si mesma): de rapariga, de Perpétua que é flor, de pomba que é asa. Mulher, flor, ave). Esta mulher/máscaras começa a viagem com as mães, ao encontro, ou pelo menos em busca… do pai. Navega nas trevas, por vezes iluminada pela lua por mares muitas vezes navegados, navega pelo meio da chuva, pelo meio das lágrimas, em paisagens de gelo. No corpo aquático da Mãe procura o Pai, nomes que aqui escrevo com maiúsculas, procurando o arquétipo.
Esta é, para mim, a única maneira possível de falar deste livro: pelo símbolo que também é o número. Porque o poema está escrito numa língua intraduzível, como criptado. As palavras são as que reconhecemos, mas criam relações tais que só mesmo entrando com elas na realidade do sonho, do símbolo ou do número é possível um ainda que leve encontro. É um mundo que se situa algures entre o concreto do pão e da semente, e o impalpável sem nome. Ou entre a neve e o lume.
Para além do mais, as palavras irradiam, criam ramificações como uma estrutura atómica. Ou como um labirinto, que deve ser a mesma coisa. A diferença, é que à entrada deste labirinto não está o cão das muitas cabeças mas uma mulher de muitos rostos a fingirem de máscara, que umas vezes é criança, outras rapariga, outras mãe, outras mar, outras Lua.
Mãe, Mar, Lua, e quase temos aqui, em peças de puzzle, sem conotações religiosas, a imagem de Ísis, ou a Virgem: Maria, que é mãe e é mar, sobre o crescente, que é Lua. Três escadas de três degraus letras ao encontro do quase inominável, do quase inominado paterno regaço, lá nesse lugar onde o sexo já não é seita ou separação, onde tudo se funde num imenso e silencioso rumor. Chamam-lhe amor.
Depois disto apenas me resta dizer, embora correndo o risco de parecer contradizer-me, que este é um poema sobre a realidade, porque lê-lo é entrar num dos infinitos mundos reais, partindo deste lugar aparentemente tão sólido, que é, já Platão dizia, sonho e sombra.
É um livro generoso que se abre para além das folhas, apesar (ou por causa) do hermetismo aqui tomado na acepção mais comum, mas também no sentido tradicional que lhe vem da origem, o deus da vara abraçada por serpentes.
Ousar entrar neste outro mundo que estas palavras criam faz encontrar um sentimento de reconhecimento, porque à medida que avançamos pelo labirinto das páginas, vamos murmurando para os nossos botões: “eu conheço este mundo, fica ao lado do meu”. Encontramos também de merecimento, e murmuramos:” eu mereço este mundo, porque o reconheço como mundo”.
Risoleta Pinto Pedro
26/10/08
Isto de ser poeta
(posso dizer que depois de a ler
não posso abrir “ o quarteto
a solo” incomoda como andar
ao Sol num dia de verão
sem ter um banco de jardim
onde pousar as letras)
hoje em dia um poeta
vale menos do que um cão
isto de deixar fugir os versos
pela internet dentro
causa-me uma grande aflição
e se amanhã eles não estiverem lá
que posso eu fazer
é muito perigoso escrever livros
hoje em dia hoje
vêm os vírus e apagam tudo
afectam as paredes do pc
não fica mesmo nada
é como se fosse tudo cego
o écran esconde as letras todas
ai senhor doutor ai senhor
doutor tenho uma dor de versos
tenho muito medo
preciso que me valha
sofro com isto tudo
é como se o meu sangue
fugisse todo pelo écran dentro
acordar de manhã ir ao sítio certo
e não ver lá nada
isto de ser poeta é uma grande aflição
ai senhor doutor ai senhor
doutor se calhar o melhor é ficar quieta
não escrever nada ficar muito quieta
ficar tudo na cabeça não usar shampoo
porque os versos podem apagar-se
fugir todos como no écran
ai senhor doutor o remédio é ficar quieta
escrever coisas sem importância
pode alguém espreitar e apagar tudo
que é pior do que roubar alguém
pois não fica nada
e amanhã senhor doutor os poetas
escreverão poemas
só com uma simples troca de olhares
e os versos voltarão a ver-se
ai senhor doutor ai senhor doutor
isto de ser poeta
é uma grande aflição
Maria Azenha
olhou o pão na mesa e deixou cair
as mãos como sementes
para que tudo crescesse a partir
do chão
/olhou o mar/ e viu as lágrimas
das trevas
iluminadas pelo céu
depois sentiu que se fechasse os olhos
por um pequeno instante /
tudo voltaria ao caos
as mães têm as mãos grandes
Maria Azenha
(porque voaste dum 7º andar com o luar nas costas?)
sei que alguns meses nos separam
as pedras lá em baixo cantam
as árvores crescem com raízes nos ouvidos
não vieste nos jornais,
discreta como sempre ,
ó menina dos olhos pretos,
a tua ânsia de rigor e perfeição
era uma borboleta branca de asas ao Sol
uma chama caiu e incendiou a terra
andarás por aí ,
continuamente em ângulos rectos?
grito da janela até espantar as estrelas
faço gestos no café até ultrapassar a lua
permaneço sentada até que o telefone toque
... ... ... ... ...
está lá? está lá?
serás tu?
ó senhora da meia- noite
do telefone-verde!
agora com outra voz
com outro disfarce
serás mesmo tu?
ou é um novo modo de chamar por nós?
está lá? está lá?
boa noite.
boa noite?
....................................................
só o Amor ressuscita os mortos.
Maria Azenha
A SIMETRIA DA VIDA HUMANA
Luís Serrano
"A Chuva nos Espelhos", veio a público, já este ano, através da editora Alma Azul e vem complementado com um prefácio de Henrique Dória.
A inclusão no título da palavra "espelhos" alerta-nos imediatamente para a simetria que é toda a vida humana, reflexão no sentido óptico, metáfora do "outro" que reflectimos e nos reflecte. Apesar da complexidade da vida somos confrontados com uma tendência para a expressão dessa complexidade num sistema de base 2, a base utilizada pelos computadores: vida/morte, amor/ódio, eu/tu, bonito/feio, real/virtual, etc, etc., ou seja o que o espelho mostra e o que o espelho esconde.
Há uma pergunta que me parece plena de significado no poema "Um biombo de açucenas para os espelhos" e que é esta (p.23) "porque nascemos entre mil espelhos?" Nem M. Azenha tem resposta nem eu, mas porventura, estes mil espelhos repetem à saciedade uma imagem que é a nossa e que nos repetimos nos outros. Ou seja, qualquer outro é sempre um "alter-ego" daquele que empresta a sua realidade. Ou ainda, os mil espelhos funcionam como "pontos de vista" que correspondem aos vários narradores do romance polifónico.
Eu diria que há nesta obra dois objectivos principais. O primeiro aparece-nos logo no 1º poema (p.7) e é, de algum modo explicitado nos dois últimos versos
"transportar o sonho de um lado para o outro
abrir com toda a força um buraco nos espelhos"
Abrir um buraco nos espelhos para quê? Para saber o que está por trás deles. Será Deus? Que demiurgo manipula as marionetas que, se calhar, nós somos? Em qualquer dos casos, abrir um buraco nos espelhos corresponde ainda a um desejo de conhecimento.
O segundo objectivo parece estar contido no último poema, "explicação dos espelhos" (p. 43), logo no 1º verso, "e multipliquem os espelhos que cantam" pois quanto maior for o seu número maior será o número daqueles que constituirão outros tantos alter-ego da autora.
Ambos os projectos se integram em "um projecto de água" (p.7) que se abre em "lugares novos espantados" (p.7). A água assume, como se sabe, carácter matricial e é um símbolo de pureza. Não é por acaso que esta palavra é das mais frequentes na obra, quer sob esta forma, quer escondida em "mar" e em "chuva".
A linguagem de Maria Azenha é uma linguagem simples com muitas pausas deixando, pois, que o silêncio adquira uma grande importância nesta poesia. Sem pausas não há música e é aqui que eu acho que Maria Azenha devia investir mais em próximo livro.
Algumas imagens são tão belas que vale a pena citá-las. Por exemplo: "é inverno frio // neva uma rosa" (p.15).
No poema da p. 16 há três versos que nos fazem lembrar uma frase célebre de Picasso: "eu não procuro, eu encontro". Os três versos são estes:
"todos os poemas que escreverei já foram escritos
dou-me apenas ao ofício das trevas
de os revelar em pedaços de argila"
Isto é, ao poeta cabe desvelar a realidade sem qualquer preocupação de explicar. Que há, de facto, uma preocupação de enfatizar a imagem em detrimento do som (visão contra audição) pode deduzir-se, por exemplo da associação de "espelhos" com "olhos", como se pode ver no poema da p.21: "os teus olhos / são ainda / mil / espelhos/.
Trata-se de uma poesia cujo lirismo, ora nos empurra para a memória da infância (há alusões discretas a esse paraíso perdido), ora acorda em nós o tom melancólico mais próprio da maturidade.
Permita-se-me que, a concluir transcreva o poema "sobre a metamorfose das casas" (p.33), seguramente um dos mais belos deste livro:
abrem portadas em Março
ao primeiro calor das árvores.
umas
em flor
outras rendilhadas de andorinhas
derramam
nos
passeios
algumas pétalas de linho.
aves de silêncio e água limpa
Por Luis Serrano - in "O Primeiro de Janeiro" - 16/06/2008
L’Oeil a-t-il été fabriqué sans aucune connaissance d’Optique [...]? Et ces choses dûément expliquées, ne paroît-il pas par les Phoenomenes, qu’il y a un Etre incorporel, vivant, intelligent, tout-present?
Isaac Newton, Traité d’Optique
O soneto de Rimbaud, “Vogais”, é a mais célebre atribuição de cores a elementos linguísticos: o A é negro, o E é branco, o U é verde, etc.. De forma explícita ou implícita, a poesia está em geral impregnada de cores. E se por vezes dado poema parece incolor, algo do domínio da Óptica contém ainda - luz. Mais do que a cor, a poesia não passa sem a claridade do dia, tal como não passa sem a escuridão da noite, sem os jogos de claro-escuro, ou sem as imagens no espelho, e os efeitos da luz na humidade do ar ou na água. Mas dará a poesia a ver essas cores e efeitos? Na palavra “arco-íris” observamos as sete cores do espectro solar? A poesia pertence à ordem das artes que apelam para o nosso olhar, como a pintura, a fotografia ou o cinema? Serão as cores da poesia susceptíveis de ser percebidas e interpretadas de diferentes modos, consoante o olhar normal, cego, ou daltónico, de quem lê? Enfim: para que servem as cores na poesia? Para pintar retratos, paisagens, naturezas-mortas? A palavra “verdura” dá mais verde à relva, a palavra “rosa” torna mais rosadas as flores, e a palavra “vermelho” atrai o nosso olhar irresistivelmente para a graça de um jardim? Quando Camões escreve: “Descalça vai para a fonte/ Lianor pela verdura”, a cor pinta um lugar ou uma situação de risco? As cores da poesia são prismáticas ou pigmentos? Eis algumas perguntas a que cada poeta responde à sua maneira, como teremos ocasião de ver.
Para os textos que tenciono escrever visando dois objectivos - o de divulgar a poesia portuguesa contemporânea a pessoas das Letras, e de o fazer segundo métodos interdisciplinares, que me permitam apresentar os trabalhos em encontros com pessoas das Ciências - escolhi duas balizas teóricas, que espero forneçam alguma ordem e metodologia na abordagem da luz e das cores: Wittgenstein (1) e Newton (2). Wittgenstein procurou elaborar uma lógica das cores, tentou entender os conceitos que nos permitem falar delas, e nesse percurso fornece ferramentas que é possível usar na exegese dos poemas, como a classificação “cores de superfície” e “cores de profundidade”, a que eu chamaria também cores explícitas (”Lianor pela verdura”) e cores implícitas, absolutas, essenciais ou objectais, por se tratar de objectos de tal cor (cal, esmeralda, ouro) e não de superfícies pintadas de branco, com tinta esverdeada, ou douradas pelo poente.
Quanto ao físico Isaac Newton, que estabeleceu uma das primeiras teorias científicas das cores e da luz, o seu peso no meu trabalho é mais de guia espiritual. Até ao século XX, Newton era tratado sobretudo como expoente do iluminismo, das Luzes no seu sentido mais racionalista e avesso à etiqueta obscurantista que então se apunha, e decerto com motivos, à religião. Depois descobriram-se os seus textos alquimistas e uma nova face se lhe rasgou como janela, ou como Janus, o deus bifronte. O mais singular na obra de Isaac Newton, que foi divinizado, cujo nome durante décadas foi atribuído aos filhos dos seus crentes, haja em vista o Isaac Newton português, botânico portuense do século XIX, o mais singular na sua obra, do meu ponto de vista, é ter ele reservado para as duas últimas, ou para a última página do seu Tratado de Óptica, as mais significativas das raras reflexões sobre Deus que se lhe conhecem na obra científica. Pertence ao domínio da sua filiação em sociedades iniciáticas, como a literatura romanesca tem denunciado nos últimos anos, a ideia de identificar Deus com a Luz. Interessante então que seja nos livros sobre Óptica, na parte final, Perguntas que servem de conclusão a toda a obra, que se faça essa luz no espírito de Newton. Mais interessante ainda é verificar que os raros biólogos contemporâneos que não são ateus utilizam como prova da existência de Deus, e portanto como argumento contra uma hipótese de evolução devida ao acaso, a pergunta que Isaac Newton se faz a si mesmo acerca da perfeição dos olhos. Os embriologistas não ateus tornaram lugar-comum invocar a perfeição do olho dos cefalópodes como prova de que só Deus o poderia ter criado. Pergunta Isaac Newton, em tradução nossa de texto em francês: A que se deve o facto de a Natureza nada fazer em vão? Que impede as estrelas fixas de cairem umas em cima das outras? E prossegue, usando, tal como Wittgenstein, a retórica da interrogação para tornar inegáveis as suas afirmações: Terá sido o olho fabricado sem nenhum conhecimento de Óptica? Um Ser vivo, incorpóreo, inteligente, omnipresente, devia patentear-se a nós, acrescenta (Livre III, pág. 545), se fosse correcta a explicação dos fenómenos.
Sem nenhum critério especial, apenas socorrendo-me das obras que têm permanecido em cima da minha mesa nos últimos meses, reli, entre outros, Carlos de Oliveira, Herberto Helder, Mário Cesariny, Almada Negreiros, e passei os olhos por outros tantos livros recentes de novos poetas, ou de autores ainda não reconhecidos como poetas, caso de Pedro Proença, por dominação absoluta sobre eles da categoria de pintores.
O que li não chega a cem livros nem nada que se lhe assemelhe, por isso não posso invocar percentagens para realçar resultados nem para comprovar asserções. Não obstante, uma conclusão avanço desde já, por contrariar um preconceito - ou pré-conceito - com que arranquei para o trabalho: o de que os poetas-pintores escreveriam versos mais coloridos do que os não pintores. Esperar-se-ia que nos poemas de pintores como Cesariny, Almada Negreiros, Alcina Marques de Almeida, Pedro Proença, Maria Azenha, etc., a cor e a luz tivessem incidência muito mais ampla do que nos poemas dos artistas só da palavra. Nem por isso. Em uns e outros a luz jorra, mas a cor aparece com moderação nos pintores-poetas mencionados. Em Almada Negreiros, por exemplo, aparece mesmo muito pouco, se bem que, quando aparece, possa surtir efeito gritante, por se tratar de uma nova cor, nunca dantes vista - se é possível ter a percepção dela -, como é o seu “azul-cu”, aliás “azul-cú”, na flechante ortografia da época (3) .
Até agora, foi em dois poetas que não são pintores que mais cores e aparato óptico encontrei: Carlos de Oliveira e Herberto Helder. Em António Ramos Rosa há bastante cor, tal como assinalei em “Obra ao verde”, dominando precisamente o verde. Este poeta é susceptível de abalar a minha provisória e prévia conclusão de que não é por ser pintor que o poeta usa muito a cor, pois Ramos Rosa também é um artista plástico. A excepção, de qualquer modo, só confirmaria a regra.
Carlos de Oliveira, a quem não conheço obra de artes plásticas, é o mais cromático dos poetas lidos. Não apenas isso: no seu “Trabalho Poético” (4) encontramos tudo quanto Isaac Newton possa ter ensinado, sobre reflexão, refracção, decomposição da luz no prisma óptico. E também encontramos aparelhos ópticos vários, bem como as máquinas da arte da luz, fotográficas e de filmar, sem esquecer os foto/gramas. Já fora da poesia, no romance Finisterra, como esquecer essa arte de produzir imagens a quente, como ele põe em cena de modo tão obsessivo, com a pirogravura?
(1) Ludwig Wittgenstein, Anotações sobre as cores. Edição bilingue. Tradução de Filipe Nogueira e Maria João Freitas, revista por Artur Morão. Lisboa, Edições 70, 1987.
(2) Traité d’Optique sur les reflexions, refractions, inflexions, et les couleurs, de la lumière. Par M. le Chevalier Newton. 2e éd. française. Trad. par M. Coste, Paris, Montalant, 1722.
(3) José de Almada Negreiros, Obras Completas. 4. Poesia. Lisboa, Editorial Estampa, 1971.
(4) Carlos de Oliveira, Obras. Lisboa, Editorial Caminho, 1992.
Autor(es): Júdice, Nuno
Ano de Publicação: 2005
Local: Lisboa
Editor: Edições Colibri
(in "a lanterna mágica")
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