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noite em visita









ela de cabelos brancos
de corpo insurrecto
sentada na cama do quarto
não tem ninguém a seu lado
chama chama
chama e volta a chamar

o som do mar bate na voz das paredes
em seus delírios e clarões assustados
é nossa senhora da água que os guia
em tropelias verbais


e escreve no ar com a ponta dos dedos
no seu teatro desesperado de amor
contra dunas  sebes  janelas  vogais
no grande livro das nuvens

e há estrondos ventos tempestades
lençóis acesos encostados ao enigma
sombras e clamores de sons iluminados
em rectângulos incendiados de futuros


lá dentro o marido vocifera bêbado
com a lua na cabeça e a pulseira na eternidade
em sangue e carne e sol queimado nos pulsos


ela com algodão nos ouvidos
em jogos de luz no escuro
procura no  invisível um fio
com a boca cheia de silêncio e comprimidos



maria azenha



Nota: Uma excelente descrição poética da degradação/desagregação de uma relação conjugal, devorada pela velhice, pela solidão e pelos "estrondos ventos tempestades". Ao ler-se o poema, sente-se toda aquela assustadora fragmentação da vida e dos sentimentos, a saltar aos bocados, entre " sombras e clamores de sons iluminados".


Trata-se de um poema, que se transforma em pesadelo, porque ainda não sabemos se o único destino, desenhado "em retângulos incendiados de futuro", será, na realidade, o procurar o "invisível fio com a boca cheia de silêncio e comprimidos".

Por cada novo poema de maria azenha, procuro sempre uma classificação para as suas metáforas "delirantes", do género, "lençóis acesos encostados ao enigma", metáfora esta, aqui, bem entrosada na corrente discursiva do poema. Atrevo-me a dizer que maria azenha é "subversiva" poeticamente. É que, historicamente, a inovação na Arte, seja ela a Poesia, o Romance, a Pintura, a Dança ou a Escultura, é sempre uma subversão contra o cânone estabelecido. Na Arte, são sempre as vanguardas que fazem as revoluções. É o caso...


Alexandre Castro

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