NUM SAPATO DE DANTE, de Maria Azenha por Luís Serrano
Como se diz na contra-capa do livro esta é uma ponte levadiça que atravessa o sonho de Brasil e Portugal […]. Sendo assim, Maria Azenha contribui de forma inequívoca para aproximar os escritores portugueses dos escritores brasileiros. A edição deste Num Sapato de Dante é de Escrituras Editora (São Paulo, 2012), edição apoiada pela Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas de Portugal tendo sido impresso no Brasil. A imagem da capa exibe um quadro de Anita De Soto (She’s made her bed). A obra apresenta um prefácio de João Lutas Craveiro que entre outras afirmações pertinentes, logo na 3ª linha da p. 13, aduz que a poesia de Maria Azenha é uma matemática feita de objectos fractais, roturas para com a normalidade. Mais adiante (mesma página) acrescenta: A poesia de Maria Azenha é um algoritmo em que as incógnitas conspiram, e tornam-se cúmplices do silêncio e do infinito. É óbvio o jogo de antíteses, de contradições (mau grado as incógnitas se tornarem cúmplices do silêncio e do infinito) que iremos encontrar ao longo da obra. Esta “provoca-nos” logo nas suas divisões aparentemente musicais (prelúdio, primeiro, segundo e terceiro andamento). Esta divisão, se esquecermos o prelúdio, faz-nos pensar num concerto mas o que na verdade, nós vamos encontrar é um descon(c,s)erto, uma acumulação de oxímoros ou para-oxímoros e daí que eu veja neste discurso poético uma fórmula onde o resultado se mantém indecifrável (como se lê no prefácio) e talvez por isso, me pareça mais desencantado do que os livros anteriores. Devo dizer, desde já, que esta é para mim a sua melhor obra. O seu domínio na escolha das imagens e das metáforas é frequentemente notável. O que é senão um grito de raiva mal contida o seu primeiro poema (p.17)? A desconstrução do corpo arrasta a desconstrução da alma e isso é ainda a viagem íntima sobre a condição humana (cito mais uma vez J. L. Craveiro). A viagem íntima veicula a espera infinita por um mundo onde todos caibam, um mundo que não seja mais o manicómio de Deus como dirá adiante na p. 23. O primeiro poema é talvez o mais conseguido ainda que M. Azenha se deixe levar aqui e além, neste e noutros poemas, por um entusiasmo demasiado acalorado, diria. A autora deveria (no meu modesto entendimento e que vale ele?) rever tudo o que escreve a frio. Não devem os poetas esquecer-se de que não há emoções sem o concurso da racionalidade. Estou certo que a autora compreenderá estas palavras sem dificuldade, ela que é licenciada em Matemáticas. Destaco do primeiro andamento o poema Violência Doméstica, indiscutível metáfora da Europa e onde há vestígios da construção pessoana de Álvaro de Campos em A Tabacaria: quando voltei/ já lá não estava/ nem a padaria/ nem a avenida/ nem o pão-de-Deus// espreitei a rua / também não estava lá[...] Em Pessoa, lê-se, relativamente ao dono da Tabacaria: Ele morrerá e eu morrerei./ Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos./ […] Sempre uma coisa tão inútil como a outra,[…]. A violência doméstica continua com alusões a Portugal, a um certo coelho e a um certo cesariny e depois as alusões alargam-se e percebe-se que a violência se estende à Europa e não há entendimento possível: não tenho tradutores de línguas em casa diz significativamente M. Azenha. Em Papamóvel (p.27), a autora recorre à ironia servida sabiamente por um jogo de aliterações que nos faz sorrir não fosse a gravidade do que subjaz ao texto. Em I don’t believe (p.28) há um inequívoco ataque à classe política, enfatizado pelo emprego parcial da língua inglesa, um dos sinais mais evidentes da colonização a que estamos a ser sujeitos. No entanto, é em português que nos diz no 3º verso: eles andam travestidos de ilusionistas. Quanto ao segundo andamento, ele é o andamento do isolamento, da solidão onde nos aparecem palavras significativas como neve e frio, por exemplo. Ora o segundo andamento de um concerto é sempre ou quase sempre um adágio mas neste caso, não sei se é legítima a aproximação. São significativos alguns títulos: vivo numa ilha (p.36) e desencontro (p.37), por exemplo. Em alguns poemas, a força das imagens é tão grande que nos faz repetir a leitura, tão belas são as escolhas. Exemplos: o poema / cai / como um cedro de palavras (p.40) ou o futuro é uma água gelada que se esconde atrás das portas (p.41) ou um murmúrio de luz (sinestesia, p.44). O poema da p.45 (lá fora o Outono) é a meu ver um dos poemas mais conseguidos da obra. Do terceiro andamento destaco dois oxímoros: faz o ensaio de ser náufrago sem barco (p.56) ou hoje não é inverno / mas chove (p.57). A este último chamar-lhe-ia antes um para-oxímoro uma vez que é possível chover sem ser inverno. No entanto, a intenção de exibir o contraditório está lá sublinhado pelo emprego do adversativo mas. Nos últimos poemas (p.65 e p.71), a autora recorre à anáfora, talvez de um modo excessivo, sobretudo no poema nada está tão próximo de Deus onde na primeira estrofe se alia à anáfora um efeito de cacofonias que poderia ter sido evitado. Este pequeno senão não retira a qualidade que eu reconheço na obra e que para mim (já o disse antes) é a melhor.
Luís Serrano Professor universitário in "AS ARTES ENTRE AS LETRAS",
nº101 26 junho, 2013
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